sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A biometria é a senha

A biometria é a senha


Nas empresas, nas casas e até nas baladas, o corpo está virando sinônimo de acesso liberado


POR DéBORA FORTES

A pista de dança está bombando. São 2 da manhã de uma sexta-feira na e-muzik, uma das casas noturnas encravadas no bairro paulistano da Vila Olímpia. Antes de cair na balada, cada um dos 800 freqüentadores teve de sacar o dedo indicador da mão direita e passar por um pequeno leitor de digitais, num processo que leva cerca de quatro segundos. Desde que foi inaugurada, em junho, a e-muzik aderiu à biometria para cadastrar os clientes e liberar o acesso às áreas vip, em substituição às irritantes pulseirinhas coloridas. Quando o cliente volta à casa, pode ser reconhecido pelas digitais armazenadas no banco de dados. Ainda não dá para fazer os pedidos no bar usando o dedo, mas o caixa está pronto para fechar a conta lendo as digitais. “Antes, era uma tremenda dor de cabeça perder o cartão de consumação. Agora, com o dedo cadastrado, podemos acessar o que foi gasto”, afirma Fabio Nardelli, sócio da e-muzik. O investimento no sistema foi de 40 mil reais. A cada noite, em média, 3% dos clientes têm algum tipo de problema na leitura da digital e, nesse caso, usam as pulseirinhas.

Assim como a e-muzik, cada vez mais empresas brasileiras estão aderindo à tecnologia que transforma estruturas particulares do corpo e características comportamentais em algoritmos matemáticos para fins de reconhecimento. Dê uma olhada nos números da pesquisa “As 100 Empresas Mais Ligadas do Brasil”, da INFO. Em 2002, apenas 12% delas usavam biometria. No ano passado, o número saltou para 21%. O crescimento é explicado principalmente pela adoção de aplicações de reconhecimento de impressões digitais — de longe, o tipo de biometria mais usado no mundo. Segundo a consultoria americana Frost & Sullivan, as digitais correspondem globalmente a 51,9% das soluções de biometria. Bem mais longe, aparecem a face, a íris, a geometria das mãos, a voz e a assinatura.

É também na ponta dos dedos que está o uso mais popular da biometria no dia-a-dia das pessoas — no PC, em casa e até no carro. No ano passado, a Audi levou a tecnologia ao seu modelo topo de linha, o A8. O dono do automóvel não precisa nem tirar a chave do bolso para dar partida no motor. Quando coloca o dedo no sensor do console central, também aciona o chamado sistema de conforto. Automaticamente, opções como a altura do banco, a posição dos retrovisores externos, a temperatura e as estações de rádio e TV se ajustam conforme as preferências cadastradas pelo motorista. O preço do A8 é proporcional a tamanha comodidade: cerca de 500 mil reais.

O reconhecimento das digitais começa a ganhar espaço na fechadura das portas em casas high tech. Algumas construtoras já incluem o leitor biométrico por padrão, principalmente em empreendimentos de luxo. A Gafisa, por exemplo, está trabalhando hoje em cinco prédios que embutem a tecnologia nas cidades de São Paulo e de Manaus. A solução escolhida foi a Smart Door, fornecida pela paulista iHouse. É possível cadastrar até 20 digitais por apartamento e restringir os dias e os horários de entrada, no caso de ter empregados. Nem toda aplicação de biometria, entretanto, está voltada para a liberação de acesso. A rede de escolas de idiomas Seven, por exemplo, instalou um sistema que avalia a satisfação do aluno após a aula e faz o controle de freqüência (veja a matéria na pág. 72). A fabricante de relógios de ponto Dimep, por sua vez, está usando a biometria em seus equipamentos para evitar que um funcionário bata o cartão ou passe o crachá no lugar de outro. Segundo a empresa, entre 20% e 30% dos relógios de ponto vendidos hoje já saem com tecnologia de reconhecimento de impressão digital.

As tecnologias de biometria evoluem em ritmo acelerado. Hoje, vários dispositivos são capazes de reconhecer golpes como dedos feitos de borracha ou de silicone. Eles incorporam sensores de temperatura e de pressão para barrar os chamados “dedos mortos”. Outra variação é no tipo de busca no banco de dados. Há modelos em que o usuário precisa digitar algum tipo de código ou passar, por exemplo, um crachá ou smart card (Os chamados cartões inteligentes embutem um chip para carregar informações) antes de pôr a digital. É a chamada verificação um para um — ou seja, o sistema não faz uma busca por aquela digital em todo o banco de dados, apenas comprova que a pessoa é ela mesma. Em tecnologias mais sofisticadas como a AFIS (Sistema mais sofisticado de reconhecimento de impressões digitais. Usa o conceito de um para “n”) (sigla de Automated Fingerprint Identification Systems), a comparação é feita de um para “n” impressões dentro do banco de dados. É esse tipo de sistema que está por trás de várias iniciativas do governo brasileiro, como o polêmico reconhecimento de americanos que entram no país. Uma das aplicações mais ambiciosas é a criação de um Sistema de Identificação Nacional (SIN), que reunirá bancos de dados de criminosos de todo o país e permitirá sua identificação com base nas digitais.

Não só no Brasil como no mundo, a área de segurança é a que concentra alguns dos projetos mais complexos de biometria no governo — e também onde vem colecionando polêmicas sobre privacidade. Veja o caso de Newham, no subúrbio de Londres. Há três anos, o reconhecimento facial foi adotado para diminuir os índices de criminalidade. Com centenas de câmeras instaladas nas ruas, o sistema vai filmando os moradores e compara essas imagens com as fotos dos criminosos armazenados no banco de dados. Segundo as autoridades locais, o índice de criminalidade caiu 40%, mas não se tem notícia de ninguém que tenha sido preso por meio desse sistema. A explicação pode estar no que se chama de efeito inibidor da biometria. “Diante da possibilidade de ser apanhada, a pessoa não comete o delito. É algo psicológico”, afirma Raul Queiroz Feitosa, professor e pesquisador do Departamento de Engenharia Elétrica da PUC-Rio. A polícia de Tampa, na Flórida, é outra que partiu para o reconhecimento facial, em 2001. Dois anos depois, desistiu porque não prendeu ninguém. O sistema foi apelidado de Big Brother pelos defensores da privacidade.

O processo de reconhecimento de face é extremamente complexo, até porque tem de levar em conta as mudanças no rosto ao longo dos anos, o que eleva a taxa de erro nos algoritmos. O sistema também está sujeito às condições de iluminação no local e é vulnerável a disfarces como bigode e peruca, óculos escuros e até operação plástica.

Os efeitos do tempo, entretanto, não atingem uma área do corpo que se transformou na darling dos especialistas em biometria: a íris. Ela é considerada hoje a tecnologia de reconhecimento mais precisa. A íris começa a se formar no terceiro mês de gestação e se completa no oitavo. Dá para avaliar nos algoritmos nada menos que 249 pontos de diferenciação. Por isso, a íris oferece menos índices de falsa aceitação (Um dos erros dos sistemas de biometria. Libera-se uma pessoa não autorizada) e de falsa rejeição (Outra forma de erro. Dessa vez, o sistema rejeita alguém que realmente está cadastrado). Hoje, entretanto, a principal desvantagem da tecnologia é o custo. “O preço alto acaba restringindo o uso”, afirma Luis Carlos Klein, vice-presidente da Security Systems, que representa no país as soluções de reconhecimento de íris da coreana LG. Quanto custa um sistema como esse? Segundo Klein, algo em torno de 13 mil dólares. Com esse preço , a íris acaba sendo usada principalmente para controlar o acesso a áreas mais restritas. O Banco Itaú, por exemplo, adotou essa tecnologia no centro de impressão e no data center. Apenas 200 funcionários estão cadastrados para entrar nesses locais.

A existência de tantos tipos de biometria possui uma explicação lógica. Cada um deles tem suas vantagens e deficiências e miram aplicações específicas. A popularíssima impressão digital enfrenta problemas em locais em que as pessoas desgastam suas digitais, como uma gráfica. Ficou nadando horas na piscina? Você poderá ser recusado pelo sistema, porque os dedos estarão enrugados. Em locais com alta concentração de pessoas, como shoppings e aeroportos, o reconhecimento facial é a tecnologia de excelência para separar uma pessoa da multidão para averiguação posterior. Mas dificilmente será usada para autorizar um saque no banco. A voz, por sua vez, está sujeita a questões de sotaque e regionalismos. “É algo bem complexo. O algoritmo precisa ir sendo reforçado”, diz Marcelo Miguel, diretor da divisão de telefonia e biometria da ESN, que representa no país os produtos de biometria vocal da israelense Persay.

O Bradesco é uma das empresas que já avaliou o uso de reconhecimento de voz no atendimento telefônico. O banco fez um piloto há dois anos em Sorocaba. A idéia era comparar o padrão de voz do cliente com o armazenado no banco de dados, liberando-o de digitar senhas. “Ainda não chegamos lá, a autenticação tem de ser plena. O reconhecimento de voz ainda é caro e não tem assertividade”, diz Laércio Albino Cezar, vice-presidente de tecnologia do Bradesco.

Para amenizar a possibilidade de erros e aumentar a confiabilidade do reconhecimento, alguns especialistas defendem a combinação de diversos tipos de biometria numa só solução, os chamados sistemas multimodais (Combinam vários tipos de biometria nunca única solução. A idéia é aumentar a segurança no reconhecimento). Assim, se uma etapa da identificação falhar, outra poderá “salvar” o processo. “Quando você combina dois ou três tipos de biometria, está colhendo um conjunto maior de características. Isso aumenta a segurança da identificação”, diz Feitosa, da PUC-Rio.

Outra corrente de cientistas defende que, em vez de aumentar a confiabilidade, os sistemas multimodais podem prejudicá-la. “Uma biometria forte é muito melhor sozinha do que em combinação com uma mais fraca”, afirma o americano John Daugman, criador dos algoritmos do reconhecimento de íris e professor de matemática e de computação da Universidade de Cambridge. Segundo ele, a combinação pode ser uma boa alternativa apenas quando são usadas confirmações do mesmo padrão, por exemplo, as duas íris ou duas digitais do mesmo indivíduo.

As combinações também podem envolver outros tipos de tecnologia, como smart cards, etiquetas inteligentes e tokens (Pequenos dispositivos de segurança. Fornecem senhas que mudam a cada minuto). Primeiro, passa-se o cartão; depois, a digital ou outra parte do corpo. “Uma área que tem forte tendência para usar smart cards com biometria é a de convênios médicos, onde há um índice alto de fraudes de identificação”, afirma Gustavo Ipolito, gerente de desenvolvimento de negócios da Siemens Business Services. Há quem defenda, inclusive, que a biometria seja um processo complementar às velhas senhas. “No passado, pensávamos numa coisa mágica que eliminaria senhas. A biometria agrega valor, mas continuamos a ter de usá-las”, afirma Leonardo Scudere, executivo sênior da área de gestão de riscos e segurança da IBM.

Sozinhos ou em conjunto, novos tipos de biometria vão sendo estudados nos laboratórios de todo o mundo, como os baseados em características como as veias, o suor e até as ranhuras da unha, num cenário cada vez mais próximo ao dos filmes de ficção. A imaginação é o limite. “Dá para pensar num futuro em que um usuário de caixa eletrônico poderá, talvez, cuspir no chão para sacar o dinheiro no caixa eletrônico”, afirma Jaime Scalco, diretor da gaúcha Compuletra, especializada em biometria. É pelo menos uma senha que ninguém nunca vai esquecer.

http://info.abril.com.br/edicoes/223/arquivos/4689_1.shl

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