domingo, 23 de maio de 2010

Merda - Por Maiquel

Johni estava se segurando há uma hora. Viera encolhido no ônibus, trancando a respiração. Caminhou cruzando as pernas, os olhos arregalados, aflito. Chegara em casa, abrira a porta e correra ao banheiro. Antes de despir-se, lembrou-se de verificar se tinha papel, e não tinha. Correu para buscá-lo e, finalmente, sentou-se no vaso. Mas não suspirou de alívio. Embora apertado, não cagou simplesmente, quase pariu, tamanha a força que teve de fazer para expelir aquele corpo estranho de dentro de si. Depois de um fragmento estalar na água, Johni sentiu-se mais cômodo, secou o suor do rosto com as costas da mão e ajeitou-se no assento. Um cheiro desagradável chegou-lhe às narinas. O banheiro tinha um metro e sessenta de largura por dois metros de comprimento, era de piso batido, marrom escuro, porta de tábuas, com uma tramela para fechar. O vaso e a pia eram marrons. As paredes eram brancas, mas onde respingava a água do chuveiro estavam verdes. Em todo o resto elas estavam descascadas. No canto havia um buraco cavocado por algum roedor medonho. Provavelmente uma ratazana. Ao lado da porta havia um pequeno móvel de madeira apoiado num tijolo, dentro do qual havia sabão em pó, desinfetante e água sanitária. Acima da pia tinha um espelho de vinte centímetros de largura por trinta de altura. Sobre a pia um copo com duas escovas de dente e creme dental, ao lado de um sabonete verde. Ao lado da pia um botijão de gás vazio, sobre o qual Johni pusera uns pedaços de jornal velho, que tinham sido usados pelo bodegueiro para enrolar o leite. Ele tomava leite todos os dias. Comia pão mas não comia frutas. Devia comer frutas também, mas nem sempre conseguia comprá-las. O teto era de madeira, umas tabuinhas estreitas, envernizadas há anos, totalmente desbotadas. Nos cantos havia frestas pelas quais espiavam aranhas marrons, de pernas finas. Mas seus ventres eram gordos, gigantescos. Elas adoravam aquele lugar porque os muitos insetos dali eram comida farta. Uma janelinha de trinta centímetros de altura por quarenta de largura deixava entrar um pouco de ar, abrindo-se no meio, de cima para baixo. Mas o que mais entrava por ela eram insetos. Mosquitos de todo o tipo, e moscas. À noite vinham umas pererecas. Uma delas ficara morando por ali, e às vezes coaxava durante o dia. O chão era irregular; após o banho ficavam poças. O chuveiro estava com um vazamento, e gotas d'água pingavam ininterruptamente, a espaços de dois segundos. Era um banheiro bastante úmido. Caíam do chuveiro gotas tão espessas que, ao chegar ao chão, ricocheteavam de tal modo que respingavam nas pernas de Johni. Ele esforçava-se. Seu rosto desfigurava-se de tanta força que fazia. Rangia os dentes, mas parecia que comera cascalhos. Trabalhara o dia todo com dores na barriga. Seus intestinos reviravam-se, rugindo. Há semanas que estava com dificuldades semelhantes. Meses. Tentara alguns chás, mas não adiantara, uma vez que o problema estava em sua alimentação. Comia pouco e mal. O tempo de que dispunha para as refeições também não era apropriado. Por baixo da porta entrou uma barata. Enorme. Preta, com detalhes marrons. Aproximou-se de Johni, que nem deu por ela. Estava de olhos fechados, espremendo-se. A barata movia suas antenas, caminhava tateando, hesitante. Era feia. Suas pernas finas e seu corpo achatado, o dorso oval, as asas recolhidas, pêlos pendendo. Os olhos inexpressivos. Johni sentiu cócega no pé. Olhou o que era que o tocava. Assustou-se com a barata e sacudiu o pé, lançando-a ao chão. A barata caiu, de pé, correu alguns passos e parou. Observou a distância entre si e o ser estranho. Calculou que ali não poderia pegá-la. Johni impacientou-se, estava nervoso. Tirou uma das alpercatas e arremessou sobre a barata. Ela saltou, atingida. Caiu de costas, com parte do corpo esmagado. Movia as patas freneticamente. Remexia-se, angustiada. Sua cara inexpressiva contraía-se de medo. Assustada, apavorou-se quando algumas formigas que passavam cercaram-na, atraídas pela ferida. Ela desesperou-se, debateu-se e, súbito, conseguiu virar-se, pondo novamente as patas no chão. Aterrorizada, arrastou-se, tentando escapar das formigas. Estas, reconhecendo-a viva, partiram. Johni observava. A parte traseira do corpo da barata estava esmagada. Puxava-se com as patas da frente, cambaleante. Johni observava, ansioso. A barata cruzou o espaço entre si e a porta. Ao invés de retornar por onde viera, arrastou-se para o canto da parede. Uma meleca branca grudava-lhe nas patas, escorrendo do ferimento. Tocou com as antenas a parede, aproximou-se ainda mais, pôs-se junto dela, a cabeça roçando o tijolo. Ergueu uma das patas da frente e segurou-se à parede com os pêlos, de modo que conseguiu erguer a outra pata. Com as duas patas dianteiras na parede, a cabeça levantada, o corpo arqueado, forçou uma escalada. Puxou-se para mais junto da parede, pondo seu corpo paralelo a ela. A pasta branca esticava-se como chiclé do corpo pendurado. A barata puxava-se, escalando. Uma barata preta, enorme, com as asas recolhidas e marrons, escalando a parede com uma ferida da qual pendia uma meleca branca. Súbito, caiu, meio de lado. Pôs-se de pé, incontinenti, e voltou à posição de escalada. Desta vez demorou mais tempo. Mostrava-se cansada. Uma mosca zumbia, barejeira. A barata estava resfolegante, extenuada. Johni observava, ainda espremendo-se. Sentia que tinha mais merda para sair. Podia senti-la próxima, grossa, dura. Uma massa espessa. A barata levantou a cabeça, movendo as antenas. Num arranco, pôs duas patas novamente contra a parede. Johni sentiu as paredes do reto dilatando-se, e, minutos após, ouviu um estrépito na água. Exausto, deixou-se quedar. A cabeça entre os joelhos. A barata tentando puxar-se, alpinista. Johni sentiu-se tonto, levantou a cabeça, aguardou um instante. Ergueu-se do vaso, rasgou um pedaço de jornal e esfregou-o no ânus. A tira ficou marrom, com uma fita de merda. Johni tirou mais um pedaço do jornal, e outro, e outro. Ao lado do vaso havia uma sacola de plástico dentro da qual punha o papel sujo. Levantou as cuecas e a calça, ajeitou-se. Puxou a cordinha da descarga. A água desceu da caixa pelo cano e encheu o vaso quase até em cima, girando. Depois começou a descer, num redemoinho, levando as fezes consigo. Johni pegou o sabonete que estava ao lado do copo com as escovas de dente e lavou as mãos. Sacudiu-as e secou-as nas calças. Parou um instante para ver a barata, a qual agora jazia de costas, sacudindo as pernas e as antenas, cercada por dezenas de formigas que picavam-na famintas. Johni esmagou-as todas e chutou-as para fora.

Fonte: http://textosdomaiquel.blogspot.com/2010/02/merda.html

Acabei de conhecer o blog via um post na comunidade do Zeitgeist. Texto bem descritivo, Também percebi que há mais textos do autor do blog lá. Logo, devo lê-los todos.
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