domingo, 23 de maio de 2010

Merda - Por Maiquel

Johni estava se segurando há uma hora. Viera encolhido no ônibus, trancando a respiração. Caminhou cruzando as pernas, os olhos arregalados, aflito. Chegara em casa, abrira a porta e correra ao banheiro. Antes de despir-se, lembrou-se de verificar se tinha papel, e não tinha. Correu para buscá-lo e, finalmente, sentou-se no vaso. Mas não suspirou de alívio. Embora apertado, não cagou simplesmente, quase pariu, tamanha a força que teve de fazer para expelir aquele corpo estranho de dentro de si. Depois de um fragmento estalar na água, Johni sentiu-se mais cômodo, secou o suor do rosto com as costas da mão e ajeitou-se no assento. Um cheiro desagradável chegou-lhe às narinas. O banheiro tinha um metro e sessenta de largura por dois metros de comprimento, era de piso batido, marrom escuro, porta de tábuas, com uma tramela para fechar. O vaso e a pia eram marrons. As paredes eram brancas, mas onde respingava a água do chuveiro estavam verdes. Em todo o resto elas estavam descascadas. No canto havia um buraco cavocado por algum roedor medonho. Provavelmente uma ratazana. Ao lado da porta havia um pequeno móvel de madeira apoiado num tijolo, dentro do qual havia sabão em pó, desinfetante e água sanitária. Acima da pia tinha um espelho de vinte centímetros de largura por trinta de altura. Sobre a pia um copo com duas escovas de dente e creme dental, ao lado de um sabonete verde. Ao lado da pia um botijão de gás vazio, sobre o qual Johni pusera uns pedaços de jornal velho, que tinham sido usados pelo bodegueiro para enrolar o leite. Ele tomava leite todos os dias. Comia pão mas não comia frutas. Devia comer frutas também, mas nem sempre conseguia comprá-las. O teto era de madeira, umas tabuinhas estreitas, envernizadas há anos, totalmente desbotadas. Nos cantos havia frestas pelas quais espiavam aranhas marrons, de pernas finas. Mas seus ventres eram gordos, gigantescos. Elas adoravam aquele lugar porque os muitos insetos dali eram comida farta. Uma janelinha de trinta centímetros de altura por quarenta de largura deixava entrar um pouco de ar, abrindo-se no meio, de cima para baixo. Mas o que mais entrava por ela eram insetos. Mosquitos de todo o tipo, e moscas. À noite vinham umas pererecas. Uma delas ficara morando por ali, e às vezes coaxava durante o dia. O chão era irregular; após o banho ficavam poças. O chuveiro estava com um vazamento, e gotas d'água pingavam ininterruptamente, a espaços de dois segundos. Era um banheiro bastante úmido. Caíam do chuveiro gotas tão espessas que, ao chegar ao chão, ricocheteavam de tal modo que respingavam nas pernas de Johni. Ele esforçava-se. Seu rosto desfigurava-se de tanta força que fazia. Rangia os dentes, mas parecia que comera cascalhos. Trabalhara o dia todo com dores na barriga. Seus intestinos reviravam-se, rugindo. Há semanas que estava com dificuldades semelhantes. Meses. Tentara alguns chás, mas não adiantara, uma vez que o problema estava em sua alimentação. Comia pouco e mal. O tempo de que dispunha para as refeições também não era apropriado. Por baixo da porta entrou uma barata. Enorme. Preta, com detalhes marrons. Aproximou-se de Johni, que nem deu por ela. Estava de olhos fechados, espremendo-se. A barata movia suas antenas, caminhava tateando, hesitante. Era feia. Suas pernas finas e seu corpo achatado, o dorso oval, as asas recolhidas, pêlos pendendo. Os olhos inexpressivos. Johni sentiu cócega no pé. Olhou o que era que o tocava. Assustou-se com a barata e sacudiu o pé, lançando-a ao chão. A barata caiu, de pé, correu alguns passos e parou. Observou a distância entre si e o ser estranho. Calculou que ali não poderia pegá-la. Johni impacientou-se, estava nervoso. Tirou uma das alpercatas e arremessou sobre a barata. Ela saltou, atingida. Caiu de costas, com parte do corpo esmagado. Movia as patas freneticamente. Remexia-se, angustiada. Sua cara inexpressiva contraía-se de medo. Assustada, apavorou-se quando algumas formigas que passavam cercaram-na, atraídas pela ferida. Ela desesperou-se, debateu-se e, súbito, conseguiu virar-se, pondo novamente as patas no chão. Aterrorizada, arrastou-se, tentando escapar das formigas. Estas, reconhecendo-a viva, partiram. Johni observava. A parte traseira do corpo da barata estava esmagada. Puxava-se com as patas da frente, cambaleante. Johni observava, ansioso. A barata cruzou o espaço entre si e a porta. Ao invés de retornar por onde viera, arrastou-se para o canto da parede. Uma meleca branca grudava-lhe nas patas, escorrendo do ferimento. Tocou com as antenas a parede, aproximou-se ainda mais, pôs-se junto dela, a cabeça roçando o tijolo. Ergueu uma das patas da frente e segurou-se à parede com os pêlos, de modo que conseguiu erguer a outra pata. Com as duas patas dianteiras na parede, a cabeça levantada, o corpo arqueado, forçou uma escalada. Puxou-se para mais junto da parede, pondo seu corpo paralelo a ela. A pasta branca esticava-se como chiclé do corpo pendurado. A barata puxava-se, escalando. Uma barata preta, enorme, com as asas recolhidas e marrons, escalando a parede com uma ferida da qual pendia uma meleca branca. Súbito, caiu, meio de lado. Pôs-se de pé, incontinenti, e voltou à posição de escalada. Desta vez demorou mais tempo. Mostrava-se cansada. Uma mosca zumbia, barejeira. A barata estava resfolegante, extenuada. Johni observava, ainda espremendo-se. Sentia que tinha mais merda para sair. Podia senti-la próxima, grossa, dura. Uma massa espessa. A barata levantou a cabeça, movendo as antenas. Num arranco, pôs duas patas novamente contra a parede. Johni sentiu as paredes do reto dilatando-se, e, minutos após, ouviu um estrépito na água. Exausto, deixou-se quedar. A cabeça entre os joelhos. A barata tentando puxar-se, alpinista. Johni sentiu-se tonto, levantou a cabeça, aguardou um instante. Ergueu-se do vaso, rasgou um pedaço de jornal e esfregou-o no ânus. A tira ficou marrom, com uma fita de merda. Johni tirou mais um pedaço do jornal, e outro, e outro. Ao lado do vaso havia uma sacola de plástico dentro da qual punha o papel sujo. Levantou as cuecas e a calça, ajeitou-se. Puxou a cordinha da descarga. A água desceu da caixa pelo cano e encheu o vaso quase até em cima, girando. Depois começou a descer, num redemoinho, levando as fezes consigo. Johni pegou o sabonete que estava ao lado do copo com as escovas de dente e lavou as mãos. Sacudiu-as e secou-as nas calças. Parou um instante para ver a barata, a qual agora jazia de costas, sacudindo as pernas e as antenas, cercada por dezenas de formigas que picavam-na famintas. Johni esmagou-as todas e chutou-as para fora.

Fonte: http://textosdomaiquel.blogspot.com/2010/02/merda.html

Acabei de conhecer o blog via um post na comunidade do Zeitgeist. Texto bem descritivo, Também percebi que há mais textos do autor do blog lá. Logo, devo lê-los todos.
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sábado, 22 de maio de 2010

A lenda dos Nove Desconhecidos

Esqueça a Roza-Cruz, os Iluminatti, a Golden Dawn ou a Maçonaria. Os Nove Desconhecidos formam a mais poderosa sociedade secreta do Universo. Poucos mitos são tão profusos em especulações: da manipulação das massas às viagens no tempo, da imortalidade às civilizações perdidas. E todas estas maravilhosas paranóias sem nenhum apelo ao misticismo.

Segundo a versão principal da lenda, a ordem dos Nove foi fundada na Índia, em 246 a. C., pelo imperador Ashoka. Objetivo: tornar o conhecimento secreto; evitar que caia em mãos erradas. E toda a sabedoria seria armazenada em nove livros, constantemente atualizados e cada qual dedicado a uma ciência: psicologia, gravitação e luz são três delas.

Sobre um dos livros, Talbot Mundy escreveu: "uma única página tem segredos de propaganda o suficiente para que um ladrão possa começar, prontamente, a sua própria religião".

Escondidos, os Nove interviriam sutilmente no mundo, de tempos em tempos, conduzindo a civilização por caminhos seguros. E muitos ocidentais, ao visitarem o Oriente, teriam entrado em contato com eles, ou com instruções de algum dos nove livros, e retornado com conhecimentos impressionantes.

Ora, e quais ligações poderia haver entre tudo isto e, por exemplo, as estranhas atividades de uma ilha perdida no pacífico? Obviamente, falo de Lost. Eles sobreviveram à queda de um avião, mas se viram presos em uma ilha cheia de eventos absurdos e, voilà, eis a trama mais indecifrável dos últimos tempos! Lost provoca o espectador com visões de mortos, sonhos proféticos e outros milagres, mas então despeja hipóteses tecnológicas, sugerindo (muitas vezes de forma direta) que nada há de realmente sobrenatural ocorrendo na ilha.

Uma fachada de mágica e misticismo para aquilo que, na verdade, é a pura ciência dissimulada, a técnica. Eis o que pode ser a ilha Lost. Eis o que é a Lenda dos Nove Desconhecidos. E parece haver outras conexões intrigantes entre estes dois universos. É fascinante ver um mito tão remoto fazer contato, e de forma tão inesperada, com um dos melhores mitos modernos.



Leia o artigo completo hein:


http://www.suasticazul.hbe.com.br/paranoia/nd/novedesconhecidos1.html Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

8000 visitas!

Pois é galera!!!

Agradecimento especial a cada mil visitas!!!! Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Morre Bebeco Garcia

Bebeco Garcia, guitarrista e cantor que iniciou sua carreira na banda GAROTOS DA RUA e que nos últimos anos seguia em carreira solo residindo em São Paulo, faleceu nesta madrugada por complicações cirúrgicas após a retirada de um tumor no cérebro.

O velório está sendo realizado no cemitério Jardim da Paz em Porto Alegre, onde será sepultado.

Bebeco era pai do músico Pedro Garcia, baterista da última formação do Planet Hemp.


Fonte: http://whiplash.net/materias/news_863/108124-garotosdarua.html


Vai mal nossa semana...depois de nos depararmos com a morte do grande Dio, agora é a vez do músico gaúcho Bebeco Garcia.

Não sei vocês, mas eu ainda tenho comigo o primeiro Lp dos Garotos da Rua...


Difícil esquecer músicas com refrões como "Lá em casa continuam/ os mesmo problemas/ Lá em casa continuam/ enchendo o saco", ou "Você é tudo o que eu quero!!..."


Vai em paz Bebeco...

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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ronald James Padavona "Dio"


"The Voice"
Dio = deus, em italiano.

Uma das maiores vozes do mundo do rock, talevz a maior voz do Heavy Metal. Deixou de viver ontem, 16 de maio de 2010, aos 67 anos.
Quem não lembra de sua atuação no filme "Tenacious D"? Ou a sua participação no documentário "Heavy Metal: a haedabanger's journey"?
Vocalista do grupo Elf, vocalista do Rainbow (//LONG LIVE ROCK'N'ROLLLLL!!!!!!!!!!), substituiu Ozzy Osbourne no Black Sabbath e depois seguiu carreira solo.
Seu "gemido' no início de "Holy diver" nos deixa estarrecidos....Die young, Chlidren of The Sea....

Dio é o cara, sua existência terrena não será facilmente esquecida...
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quarta-feira, 12 de maio de 2010

O óleo de Lorenzo

Pequena resenha que elaborei esse ano para a faculdade de sociologia.


Assistir ao filme “O óleo de Lorenzo” (Lorenzo’s oil, 1992) é uma fascinante viagem ao mundo da pesquisa. O trajeto emocionante nos é ensinado pelo pai de Lorenzo Odone (Peter Ustinov), o senhor Odone, interpretado pelo ator Nick Nolte, que, juntamente com sua esposa, interpretada por Susan Sarandon, travam uma luta incansável na busca da cura do seu filho. O pequeno Lorenzo fora vítima de uma rara doença genética que afeta diretamente o cérebro, a adrenoleucodistrofia (ALD), causada pelo acumulo de ácidos graxos saturados de cadeia longa principalmente nas células do cérebro. Evidente que tal descrição torna-se incompatível com o conhecimento leigo em medicina e isso é marcante no filme que narra uma história real. E porque? Porque os pais de Lorenzo decidem procurar uma cura por conta própria. Aos quarenta minutos o senhor Odone dirige-se a sua esposa com a seguinte fala: “Deveríamos tratar a doença de Lorenzo como se fosse outro país”, ou seja, tentar conhecer, entender, compreender o mal que se abatera sobre seu filho. A partir daí começa uma busca incansável do casal por tentar entender a ALD, como autênticos cientistas na busca do conhecimento tão estimado. Em seguida Odone diz: “Para que possamos entendê-la, precisamos entender genética, bioquímica, microbiologia, neurologia, as “logias””, mais uma vez nos espantando com sua decisão de leigo de tentar entender uma doença genética nos seus mínimos detalhes para poder encontrar a cura tão almejada. Esse é o espírito cientifico tão apregoado nas universidades e que apaixona quem assiste ao filme, pois não se trata de um simples drama, mas de um drama real vivido por pessoas que não detinham conhecimento algum de biologia ou genética. Todavia, o amor pelo filho foi maior e levou um homem leigo em bioquímica a escrever um verdadeiro tratado sobre o assunto, tudo devido a uma catástrofe que se abateu sobre sua família.

(A imagem ao lado é da família Odone real)

O filme tem um fundo científico fantástico, embora seja baseado no amor de um pai e uma mãe por seu filho. Ponderamos sobre nossa capacidade para enfrentar o desconhecido tentando conhece-lo e esbarramos em desafios amiúdes se comparados aos enfrentados pelo senhor Odone. Todo o trabalho e dificuldade por que passaram os Odone teve resultado esperados de quem se supera na busca pelo conhecimento. Assim como um detetive que junta peças para montar o seu cenário, os Odone foram concentrando os seus esforços nas causas da doença e como estanca-la do seu filho. A decisão de ler, sair e se informar, de tomar a responsabilidade pelo entendimento deve ser comparada ao papel do pesquisador, como um historiador. Ler os fatos, juntar os fatos, contradize-los, compara-los, digeri-los, enfim, usar de todas as estratégias para poder compreender o passado ou a representação que se tem dele. Como olhar uma paisagem e tentar abstrair cada elemento que a compõe. A comparação pelo senhor Odone da ALD com uma pia é sensacional, contudo, é superada quando sua esposa descobre “ao acaso”, como ela mesma diz, um estudo sobre os ácidos graxos que tanto importunam o seu filho. É claro que não foi por acaso que ela descobriu o tal estudo. Quando se pesquisa a fundo, a sério, qualquer assunto que seja o mais provável é que encontremos as respostas que procuramos ou algum caminho que nos leve a elas.


Infelizmente, Lorenzo Odone faleceu em 30 de maio de 2008, um dia após completar 30 anos devido a uma forte broncopneumonia ocasionada ao acumulo de alimentos nos pulmões.

O Óleo de Lorenzo

titulo original: (Lorenzo's Oil)

lançamento: 1992 (EUA)

direção: George Miller

atores: Susan Sarandon , Nick Nolte , Peter Ustinov , Kathleen Wilhoite , Gerry Bamman

duração: 135 min

gênero: Drama

status: arquivado


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terça-feira, 11 de maio de 2010

Bom dia? Oras bolas!

Eu sempre me espanto com a capacidade dos meus alunos e de minha alunas. O texto abaixo é de autoria da Danieli e da Ana Caroline, do segundo ano do Ensino Médio, na comuniadede Sanga do Engenho, em Forquilhinha, SC, onde moro.


Uma atitude filosófica ao começar o dia e a leve diferença entre achar e pensar


De manhã, acordamos, lavamos o rosto, tomamos café, depois uns vão trabalhar, outros vão estudar (é o nosso caso!). Ao depararmos com um parente amigo, conhecido ou até alguém que não conhecemos nossa primeira atitude logo ao vê-lo pela manhã é dizer: “Bom dia”. Mas o que significa esse ‘Bom dia’, o que é? Será que imaginamos todas as etapas desse dia dessa pessoa? Imaginamos um dia melhor para ela? Como é? É um ‘Bom dia’ sincero de coração? Por que, oras? Será que desejo mesmo que ela tenha um ‘Bom dia’? Ou será apenas um costume para cortar o silêncio? Porque, por quê? Adiantaria o meu pequeno e singelo ‘Bom dia’?

Bem, querendo ou não, o tal do “bom dia” é costume de muitos e às vezes é dito só por educação mesmo. Mas o que vale é o que vem do coração, e se você deseja de lá de dentro mesmo, a positividade contagia e pode ter certeza que será realmente um “Bom dia”!

Portanto, quando “eu acho”, estou expondo as minhas vontades, minhas idéias e a minha opinião. É o que eu acho, mas não significa que está correto, pois são as minhas conclusões. Outros podem ver de outra forma, mas o que eu acho é só o que eu acho, são meus valores que vem de mim, são conclusões que tiro.

Agora, se “eu penso”, é uma reflexão minha. O que eu penso ou deixo de pensar os outros não precisam saber. O que eu penso, muitas vezes só eu entendo, é algo só meu, eu discuto comigo mesma e ninguém tem nada a ver, e então, fica só pra mim. O pensamento vem lá do inconsciente, do consciente, muitas vezes, passa e não concluímos nada.


P.S: Nada não existe, não é mesmo? Portanto sempre concluiremos alguma coisa, por menor que seja. Infelizmente o texto não ficou perfeito... acredito que a perfeição não exista. Mas isso é só o que eu acho...


Não ficou perfeito? E perfeição existe? Se todos meus alunos pudessem argumentar assim, seria uma maravilha!!



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Veneno para gatos e cães

Pois é, ouvi hoje, melhor, assisti no Jornal do Almoço... em Floripa pessoas estão matando gatos. Algo novo? Não, mais velho que eu. Quem são essas pessoas que matam gatos? São cristãos, católicos, evangélicos, são pessoas que fazem o 'mal", não são "macumbeiros". Sao cristãos. Os mesmos que oram para um deus invisível e dizem que se arrependem. Conheço muitos assim. Vão na missa, no culto, leem biblía, e matam gatos indefesos, cães, chutam sapos.
Parabéns para vocês. Eu também mato ratos, mosquitos, moscas e outros insetos, afinal, assim como vocês, eu também sou superior....


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sexta-feira, 7 de maio de 2010

Monólogo senil contra a moda vazia

O que percebo é uma falta de limites nos nossos primeiros anos do ensino médio, não diferente dos outros anos, em muitos casos. Falta de responsabilidade com antes não se via (ou talvez se omitia...). Claro, não podemos ser deterministas, mas minha geração cresceu nas ruas, pulando valos de esgoto a céu aberto, trabalhando em olarias, largando estudo ou sofrendo para trabalhar e estudar. E ninguém morreu por causa disso. Falo por mim, e por alguns outros também, nossos direitos andavam alinhavados com nossos deveres. Ainda lembro de quantas vezes aos onze anos de idade eu dizia que minha vida era uma festa... Estudar era ótimo, não apenas por causa da escola, do estudo em si porque sabíamos que era importante (foi o que sempre nos disseram), mas porque quebrava um pouco o ritmo, víamos outros colegas, aprendíamos coisas novas e brincávamos muito no recreio que parecia sempre ter mais do que meros quinze minutos. Eu cresci brincando nas ruas, entre primos, amigos, colegas em longas tardes. Meu filho não tem e nem terá isso, o que me entristece. Em minha infância o medo maior era dos ciganos que “comiam” as criancinhas, os “tarados” eram poucos e não tão assustadores como hoje...

Visão turvada pelos ditames da mídia, perpetuada pelos embabacantes “reality shows”. Show de realidades ou hipocrisia nefasta? Entrar em sala de aula nos primeiros meses do ano é um infortúnio. O comentário mais “inteligente” é versado sobre qualquer último paredão. Nos veículos de comunicação o que vemos é apenas a alienação massiva imposta e bem recebida pelas pobres mentes há muito classificadas pelo senso comum como o futuro da nação. Na tevê vejo pessoas que criticam a falta de compromisso dos nossos jovens, mas não os vejo criticar o instrumento responsável por essa alienação. Senão, vejamos alguns casos:

- Luis Carlos Prates, colunista do Diário Catarinense e comentarista do Jornal do Almoço em Santa Catarina. É louvável seu apreço a leitura e a falta que essa atividade faz aos jovens, no entanto, nunca o vejo tecer qualquer palavra ao bigbundasbrasil. Nunca o vejo criticar a imbecilidade das telenovelas. Critica a imbecilidade das pessoas, mas não critica a imbecilidade propagada pela sua emissora;

- Arnaldo Jabor. Tive poucas oportunidades de vê-lo na tevê (até porque quase não assisto mesmo), e já que serve a mesma emissora do jornalista citado acima, pouco tenho a acrescentar. Já li alguns artigos seus na mídia impressa e pude constatar a sua qualidade. Porém, de que adianta criticar a incapacidade eleitoral do povão e continuar a servir a tão amada rede globo que tanto bestializa nosso povo?

- Miriam Leitão, comentarista econômica do Bom Dia Brasil. Gostava de ouvir seus comentários limpos e bem educados. Até mesmo quando dirigia suas palavras ácidas à esquerda o fazia de maneira inteligente sem recorrer a sectarismo. Bom, nem sempre.

- Alexandre Garcia. Seu suposto humor politicamente correto me preocupa. Além de ser um bom profissional na área, percebemos seu alto grau de intelectualidade, o que o eleva enquanto exemplo aos seus telespectadores. Todavia, ao ironizar o governo Lula, como fazem muitos jornalistas, também está legitimando a imbecilidade de seus eleitores. E esses o aplaudem. (nem eu sou fã do Lula, nunca votei nele);

- Diogo Mainardi. Conheço-o o suficiente para não querer conhecê-lo além. Pode não se achar, mas o cara é arrogante hein. Suas palavras o entregam. Num de seus artigos na revista Veja (eu não vejo... só quando há alguma coisa imparcial na revista...) compara a música popular com a pobreza. Porém, os países ricos não possuem também a sua música popular? Isso os destitui de seu valor? Até hoje não encontrei nada seu que valesse a pena ler.

Bom, mas porque falar desses profissionais? O que eles tem a ver com a imbecilidade reinante em nossos jovens? Eles tem tudo a ver, a começar pelo fato de estarem servindo a tão amada mídia televisiva, exceto o Mainardi, que serve a mídia impressa. E nossos jovens perdem tempo com telejornais? Não, pois os consideram “perca de tempo”. Entretanto, como já dito antes, são esses comentaristas que criticam a desconsciência do nosso povo e, por consequência, nossos jovens. Volto a falar, criticam a gente comum que dá ibope a sua emissora que não é criticada por eles.

Prates costuma criticar as mães que criam suas filhas para serem modelos. Porque não critica um programa como o Caldeirão do Huck que exibe ostensivamente os estereótipos de beleza feminina, geralmente semi-nuas? Critica a violência familiar, mas não critica o fato da tevê propagar e propagandear a violência nua a e crua dos filmes e desenhos animados. Critica a banalização do corpo feminino, do sexo, da família, da infância, contudo, o corpo feminino é banalizado em programas da globo, ou as beldades que desfilam no superpop da “Lu” Gimenez, nos programas da Record, no pânico na tevê (até gostava da crítica deles), ou quando o Sbt transforma uma pessoa feia em bonita... assim como o sexo, o linguajar escroto (quando ouvi numa novela das nove em 2005 a palavra merda?! De que adianta ensinar e cobrar de meus alunos quando eles veem isso na teve como algo natural?); e ainda a infância bestializada nos programas infantis. Gostaria de ouvir o Prates criticar a emissora a que serve.

Essas palavras servem aos outros comentaristas citados. Os ignorantes que vocês criticam são os mesmos que elegem os ignorantes que nos governam e também são os mesmo que dão ibope as emissoras que propagam a ignorância reinante nesse país.

Mas a televisão como sabemos, não transmite apenas coisas ruins, embora eu a evite ao máximo por outro vício, a internet. Nossos comentaristas também não falam só baboseiras (uso textos do Prates em minhas aulas, por exemplo), mas continuam a servir os ditames de uma elite que se contenta com a ignorância alheia. Logo, enquanto continuarem a defender ‘tacitamente’ aos senhores que servem, de pouco adiantará as palavras que nos dirigem. E esses senhores. Como afirmei acima, contentam-se com nossa ignorância. Nossa não! Quero me excluir dessa incapacidade de questionar e procurar pelo diferente.

Infelizmente, nossos jovens são subordinados e bombardeados pela banalização do mundo imposta pela mídia. Basta aparecer um novo grupo musical “cantando” qualquer babaquice com uma mulher bonita (segundo os padrões oferecidos) para que os jovens sigam cantando. Um hit do momento versa sobre pedalar usando minissaia e “tapar” a calcinha. Meu filho de seis anos chega da escola cantando aquilo que ouve por lá: “rebolation”, outro hit muito bem elaborado e aclamado do momento (ironic mode on_rsrs_ até eu aderindo aos vícios da rede virtual...). Me chamem de velho, entretanto, ainda lembro do tempo que os discos de vinil traziam a inscrição “Disco é cultura’ impressa na contracapa. Os meus possuem. Talvez seja isso, a bestialização imposta pela indústria cultural que transformou músicos e artistas em produtos a serem consumidos, mastigados e defecados. A volatilidade dos produtos culturais hoje é característica marcante dessa juventude efêmera, lhes faltam raízes, suportes. Muitos nem sequer tem algum dvd, copiado que seja, ou cd em casa, pois seus celulares já acomodam as músicas que lhes convém, até a próxima moda musical. Quando em sala de aula lhes ofereço uma música diferente ( e diga-se de passagem, sou bem eclético), ou quando lhes trago algum filme que foge aos padrões hollywoodianos, sou atacado com desdém ou profundo interesse pela visão do diferente a que não estão acostumados (então há esperança ainda).

Minha vida também sofre a influência disso tudo. Graças a internet hoje tenho acesso a um mundo infinito de informação. Os blogs me oferecem as bandas e músicos que farão parte do meu “media player” nos próximos três ou quatro meses, quando outras se juntarão, jamais substituindo, sempre somando e aumentando meu repertório musical a cada dia mais eclético. Mesmo assim, me pergunto, quantas músicas em formato mp3 tenho arquivadas ainda não ouvi e talvez nunca ouvirei? Baixar da internet já deixou de ser pirataria, virou banalidade e não servem nem pra passar o tempo. Sempre volto aos meus cd’s e lp’s, mais reais e menos virtuais. Ou vemos a inscrição “mp3 é cultura”? E é cultura sim! Mais interessante a comunidade do orkut: “Contra burguês, baixe mp3”. Eis o compartilhamento da cultura e informação tão apregoado pelas mentes libertárias! Não, não sou a favor da pirataria, pois não pretendo ganhar dinheiro fácil a custa do trabalho dos outros. Ainda penso como os antigos, dinheiro bom é dinheiro suado. Sorry, excusa, etc...

Talvez eu esteja perdido no tempo, mas sei que tudo isso incomoda muitos “velhos” como eu. E olho para meus alunos e me desespero quando passo o filtro porque alguns parecem simplesmente hipnotizados. Vejo alunas que defendem com unhas e dentes um cantorzinho qualquer chamado Luan Santana. Não questionam lirismo ou qualidade musical, apenas evocam um rostinho bonito. Ouvi uma aluna com uma imagem de um participante do bigbosta na mão dizendo que “aquele sim que era um homem de verdade”. Moreno, alto, saradão, e muito distante da realidade dela. Perguntei-lhe quantos homens do tipo ela conhecia pessoalmente. Nenhum, me disse ela. Nunca carecemos tanto de herois como exemplos.

Sei que alguns me criticam. Dizem que não podem ser todos iguais, que é preciso haver ignorantes para cantar, para serem artistas, ignorantes na televisão e tal, porque isso diverte o povo. Afinal, já pensou se todos questionassem o mundo em que vivemos, as músicas que tocam nas rádios, na tevê? Iria ser todo mundo chato, não é? Sei não, é o que dizem por aí. Também gosto de me divertir, e uma vez eu até dancei funk. Peço desculpas para os meus, (rsrsrs), mas estava sob efeito do álcool. Aí, tudo o que eu disse acima vai por água abaixo.

É sério, nunca carecemos tanto de herois como exemplos...

Prof. Wagner Fonseca, abril de /2010

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