sábado, 11 de junho de 2016

Um país sem escolas



Começou um estremecimento social ininterrupto e precisei fugir do meu país. Melhor dizendo, eu fui expulso. Era isso ou morrer, talvez não biologicamente falando, mas morrer no sentido de existir. Como existir sem ser aquilo que se é?

A gente começa a morrer quando começam a nos proibir: proibir de falar, depois de escrever, ou tudo junto. Daí te proíbem de olhar e até de ouvir. Não contentes, começam a nos proibir de pensar e logo mais já estamos proibidos de existir. Para a morte consumada é apenas um passo. E foi assim que começaram: proibindo tudo aquilo que não conseguiam entender, tudo aquilo que lhes custava aprender, proibindo os diferentes de serem “diferentes”. Proibiram as pessoas de seus direitos fundamentais, tudo lentamente, tudo arquitetado maquiavelicamente com leis bem elaboradas que gradualmente cercearam a liberdade de quase todo mundo.

Aqueles que eram incapazes de olhar de outra forma ou de pelo menos observar os vários lados de uma mesma moeda capciosamente tolheram a liberdade de ser, tudo em nome – o velho lugar-comum – tudo em nome da moral e dos bons costumes. Era tudo em nome das pessoas de bem, jamais do bem das pessoas. Na falta de um nome melhor para classificar aquelas pessoas, nós os tínhamos pela alcunha de “Incapazes”: de ver o outro, de sentir o outro, de falar com o outro, de aceitar o outro, de ler e aprender a ser como si próprios e como os outros. Incapazes de refletir, incapazes de amar, incapazes de sentir, incapazes de aceitar tudo que fosse contra suas vontades e desejos de autoridade. Começaram pelas escolas.

Aos professores proibiram de ser quem eram e emitiram um decreto obrigando-os à neutralidade de suas disciplinas. Suas opiniões foram castradas! Acusados de doutrinadores tiveram que obrigatoriamente calar-se ante o repúdio progenital e, impedidos de ensinar, deixaram de realizar sua tarefa mais básica: desenvolver-se em meio ao conhecimento consigo e com seus alunos. Os progenitores, sempre distantes das salas de aula, galgaram ao nível de reais paladinos da educação escolar, cabendo aos mestres e docentes a atividade de transmitir aos seus pupilos unicamente o que agradava aqueles. Transmitir é um verbo que sempre machucou os ouvidos dos professores, embora muito debate tenha se travado sobre ele, no final foi o que lhes restou: meros apêndices de informação.

Em pouco tempo o risco da doutrinação foi escalpelado das salas de aula depois que alguns renitentes tentaram, em vão, cumprir suas reais funções de mestres: foram demitidos, perseguidos, abafados e por fim presos. A lição havia sido passada, aprendida e avaliada como justa. Assim se encerrou o pesadelo da doutrinação em sala de aula. Era de se esperar, contudo, que a doutrinação voltasse aos lugares de origem: as reuniões de sindicatos e partidos, as igrejas principalmente, e as reuniões sagradas dos grandes clubes da mão que ninguém vê. Porém, as próprias escolas voltaram a ser doutrinadoras, agora ensinando o rico “bê a bá” da boa moral, da límpida ética e dos sagrados costumes que guiavam o povo Incapaz. Finalmente tudo correria bem para as pessoas de bem!

Rapidamente percebeu-se que tudo aquilo era em vão se os Incapazes não impusessem seu mundo e sua forma de ver o mundo aos jovens alunos que construiriam uma nação rica e poderosa, um verdadeiro novo mundo! O primeiro ataque era esperado e atingiu as ciências humanas, o que sempre soou estranho, pois se somos seres humanos, porque não podemos aprender sobre nós? Filosofia, uma disciplina ‘difícil’, totalmente desnecessária. Adolescentes nada têm que ficar divagando. Divagações são coisas de poetas, seres abjetos, preguiçosos que só fazem ficar contemplando o mundo sem fazê-lo desenvolver-se. Filosofia? O pensar sobre o pensar? Trabalhadores não precisam disso, trabalhadores precisam aprender seu lugar. E com um corte certeiro a filosofia fora decepada dos bancos escolares! Em seguida, obviamente, a sociologia teve seu quinhão! Sociologia é uma palavra que lembra socialismo e teve de ser execrada! A sociedade decorre naturalmente da vontade divina, dizia-se no passado, e se hoje está como está é por causa das deturpações realizadas por tantos filósofos ateus e sociólogos preguiçosos que também não gostavam de trabalhar. Onde já se viu espalhar uma ideia de ricos serem iguais aos pobres! Isso é um sacrilégio, pois fomos feitos todos diferentes e é assim que tem que ser! Cada um com seu fardo, nada de inventar teorias sobre a sociedade!

Os Incapazes davam-se por contentes, contudo, viram que podiam ir ainda mais longe, pois filosofia e sociologia respingavam na história e na geografia, o que os levou a agir rapidamente e retroceder o país algumas décadas. Criaram sua agenda de dominação (ah, eles não permitiam que se usasse esse termo para suas táticas) e impuseram o estudo que melhor lhe conviesse no lugar das humanas: uma única religiosidade, civismo unilateral e moral fechada inquestionável, embora bradassem aos quatro ventos o direito às diferenças, amalgamavam a todos dessa forma. Livros já eram, naquela época, fortemente censurados. Em sala de aula só entrava aquilo que não contestasse a fé e os bons costumes. Biologia e química sofreram seus golpes também e em seguida cada uma das disciplinas teve seu tiro de misericórdia.

A loucura tomou conta dos Incapazes: sua incapacidade para o outro tornou-se incapacidade para si próprios. As leis que criavam beiravam a demência coletiva o que, àquele momento, pouco importava: o povo havia perdido a si mesmo.

No pedaço de jornal rasgado que encontrei em meu bolso no exílio eu consegui ler algumas linhas da loucura coletiva que tomou o país: 

Artigo 1º: fica proibido o ensino de ciências, física ou química. A sua prática considerar-se-á crime por analisarem cientificamente o mundo, o ser humano e o universo.
Artigo 2º: o exercício da prática do português obedecerá a mesma regra e cabe unicamente aos progenitores o ensino da língua escrita e falada, cabendo seu uso exclusivo para documentos técnicos, oficiais e religiosos.
Artigo 3º: o ensino da arte dar-se-á perante a análise minuciosa de sensor religioso. Qualquer possibilidade de ensinamento científico, poético ou profano incidirá em crime inafiançável.
Artigo 4º: o atributo de contagem de números somente será permitido aos escribas oficiais do governo.   
Artigo 5º: tornam-se proibidas qualquer reunião no intuito de ensinar...

E o papel rasgado morria ali. Ali também morriam as últimas escolas. O que houve em diante foi uma triste guerra civil em que irmãos matavam a irmãos e todos eram perseguidos. Hoje, dez anos depois o país retornou à tirania do passado e muitos como eu recebem diariamente mensagens em celular ou no e-mail nos ameaçando caso queiramos retornar.


Aquele foi meu país, não era um paraíso, mas era onde podia-se viver. Havia escolas, cultura e livros. Hoje há ordem e retrocesso para um povo carente de tudo, carente de si próprio, carente de identidade, de liberdade, de igualdade, de oportunidades. Um povo ainda mais carente de ser POVO. Ainda é um país. É bem menos que isso. É um país sem escolas. 
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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Você é livre para pensar...ainda


Há alguns anos chamava-me a atenção um comercial da TV Futura. Na verdade eram dois, porém, um em especial encerrava-se com o seguinte dizer: “Sorte sua que nasceu numa época em que é livre para pensar!” Talvez não esteja reproduzindo exatamente as palavras como foram ditas, o que pouco importa, visto que a mensagem é facilmente compreensível.


O comercial em questão citava algumas personalidades de distintas épocas e todo seu esforço para poderem expressar suas visões de mundo e seus próprios pensamentos. Personagens como Galileu, Robespierre e outros elencavam o curto comercial que simbolizava uma verdadeira aula de liberdade, essa musa cantada em todos os tempos.

Na Idade Média europeia ocidental é sabido o forte poder exercido pela Igreja Católica em todos os níveis da sociedade, o que levou figuras como o já citado Galileu a ser condenado. Por pouco não morreu nas mãos da inquisição ao cometer um crime perigoso na época: desconsiderar a Terra como centro da Criação. Outros foram queimados vivos por bem menos e muitos milhares sofreram nas mãos dos que julgavam os supostos culpados de crimes como bruxaria. Muito tempo antes, Sócrates fora condenado à morte por corromper a juventude e questionar os deuses. O que procurava o grande filósofo era fazer as pessoas pensarem por si próprios, buscarem suas verdades em meio às suas próprias ilusões e não fazia caso de saber se seus interlocutores eram pobres ou ricos. Talvez esse tenha sido seu maior erro, querer ensinar pessoas comuns. Pessoas comuns são “perigosas” só por existirem, imaginem quando questionam a si próprias e ao mundo que as cerca.

Na famosa alegoria da caverna de Platão vemos a figura novamente de Sócrates como aquele que reconhece sua ignorância e parte na aventura do conhecer, porém, quando retorna aos seus, é morto por causar baderna no conforto daqueles comodistas. Quantos hoje incomodam apenas pelo fato de suas existências colocarem em xeque as instâncias máximas de nossa sociedade? Por que os índios são massacrados até hoje? Se observarmos e refletirmos sobre sua existência, se estudarmos profundamente seu modo de viver, poderemos aprender muito com eles. Os índios nos ensinam que não precisamos de muito para viver, que o ‘homem civilizado’ complica demais sua própria existência. Quer lição maior? Aprender a viver com pouco, aquela lição dos “R’s”: reutilizar, reciclar e reduzir, sendo que este último verbo é o mais apavorante ao moderno mundo capitalista! Já imaginou se as pessoas reduzirem seus gastos? Comprar menos roupas porque realmente não precisamos de muitas, assim como não precisamos do melhor carro ou do ano, ou trocar nossos calçados várias vezes.

Eu até poderia continuar nessa verborragia, mas dá para ver que ‘pestanas’ já se avolumam, afinal, cabeludo e com papo hippie, só pode ser comunista! E como isso é perigoso, não é mesmo? Tanto marketing sobre as novas modas influenciando tantas mentes a comprar, comprar e mais comprar, tudo para mover a economia e fazer a roda do sistema girar! E aí aparece um doido que não quer contribuir com a seta dourada desse sistema. É o fim dos tempos mesmo! E ainda fala em liberdade de pensar! Oras, todos somos livres para pensar, não é mesmo?

Eu retorno ao comercial da TV FUTURA e seu epílogo: “Sorte sua viver em uma época em que é livre para pensar”. Sorte nossa, realmente, que tivemos homens e mulheres corajosas que deram seu sangue e suas vidas para que pudéssemos ter esse pouquinho que liberdade que temos. Infelizmente, como a sorte sozinha não faz história, há muita gente lutando diariamente em todos os lugares e principalmente nos centros de comando da sociedade para que nossa liberdade de pensar seja cerceada a cada dia mais. Forcas e fogueiras parecem instrumentos que nunca se apagam em nossa história e aos nossos índios espelhinhos não fazem mais efeitos. Aos nossos filósofos, cicuta é mero subterfúgio onírico.

Ouse sair da caverna, mas tome cuidado ao retornar.      
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quinta-feira, 5 de maio de 2016

sexta-feira, 15 de abril de 2016

La fiesta del 'impítima'!


 


E vai rolar a festa, dizem, da democracia, o que é difícil saber. Certo é que festa haverá. Embora saibamos que motivo não há. Afinal, porque comemorar a simples troca de peças no jogo que não permite o povo jogar, quiçá ganhar?

Suspiro...

Bem, a festa haverá, com toda certeza, faz parte do habitus brasileiro festejar sua própria tristeza, sua miserável desgraça. Ao fim, todos sabem, o tabuleiro continuará incólume e as peças continuarão a jogar. Engana-se, contudo, que o rei e a rainha mandam alguma coisa. Os verdadeiros mandantes articulam as peças, as regras, o tabuleiro e entre si decidem como funcionará o campeonato, sempre renovado.

 No fim de cada disputa uma festa maior e as peças já não conseguem mais enxergar com seus olhos de marionetes.

Suspiro... E festa haverá...

Bandeiras empunhadas, balões faceiros, patinhos fofinhos, folclóricos seres listrados e convicções à flor da pele. Haverá lágrimas nos cidadãos de bem e capas de revistas mirando o futuro da nação! Um otimismo comum brilhará nos corações mais ingênuos e suas prestações serão pagas com mais alívio. Afinal, o monstro maior foi afastado, agora lutaremos contra outros, dirão alguns editoriais bem intencionados...

Mudará o jogo, mudarão as regras e as peças, mas não mudarão os competidores, os donos das rédeas.

Alguns dirão: “Decepamos a cabeça da cobra!” É, porém, não se trata de uma pobre sucuri. A cobra é mais antiga e se apoia em mitos muito bem arquitetados para garantir um mundo que não seja transformado. É uma hidra que se enrosca por toda a sociedade e, no lugar da cabeça decepada, outras cabeças surgirão para nos amedrontar. Bem, o mais certo é tratar como um ninho de hidras e infinitas cabeças...

De toda forma, o mais certo é afirmar: a festa haverá. Pegue sua coxinha e sua coca, pegue mais outra e guarde no bolso e cuido seu bolso para não sujar. Envolva a coxinha no branco guardanapo, pois o bolos é lugar puro, jamais antro de sacrilégios lipidinosos!

De posse de seu estomago bem alimentado, pegue seu celular de última geração e faça aquela selfie que será recordada daqui um ano.

A festa haverá, essa é a certeza, só não sabemos em qual salão será.

A festa haverá, essa é a certeza, mesmo que não saibamos quem ficará bailando mais tempo.


Humm... É só imaginar: você não comanda o jogo, mas insiste em comemorar...
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terça-feira, 12 de abril de 2016

Ensinar artes nas escola? Para quê?



Ah, sim, poderia ser, mas não precisamos disso. O que precisamos são de pessoas que saibam mais somar, multiplicar e dividir, coisas assim. Melhor, não precisamos que saibam muito disso também, precisamos de pessoas bem adestradas, domesticadas e caladas, ou melhor, que saibam repetir apenas as verdades endeusadas.
Precisamos de pessoas que não se importem muito em ser
pisoteadas, logo vem outra eleição e um dinheirinho pelo votinho corriqueiro - que já não vale mais nada...
Ensinar arte? Para que isso? Há novela, Caldeirão, ratos e
faustos nos seus domingos televisivos, molecada cantando, bundas sacudindo, quem precisa de arte?
Precisamos de trabalhadores, de preferência vacinados - para
não dar gastos - e também vacinados contra os sindicatos, pois quem sabe de seus direitos são os "erreagás" dos seus patrões (sem ofensas, por favor) e temos a justiça do trabalho. Aliás, justiça é o que não falta neste país, é só olhar quantas leis para proteger quem nem precisaria se apenas os respeitássemos....
Ensinar arte nas escolas é tão inútil quanto ensinar
gramática, ou ensinar a ler e bem falar....
Ensinar artes nas escolas é tão inútil quanto ensinar
sociologia, afinal, para entender a sociedade é só assistir o jornal sagrado de todas as noites, ou do fim da tarde.
Pensar sobre a sociedade, que palhaçada, "cota pra
mim" que já ensino como funciona, no fio de uma navalha...
Ensinar artes na escola é tão inútil quanto ensinar
filosofia, que não serve para nada, afinal, no chão da fábrica você vai apertar botões e não teorias...
Sei não, acho perigoso ensinar artes, tanto quanto ensinar a
pensar, sobre o mundo, sobre si mesmo, sobre a sociedade.
Não queremos pessoas perigosas na sociedade, não queremos
pessoas que reflitam sobre a realidade.
Senhores engravatados, nos façam o favor, esqueçam as
escolas e o livre pensar pelo bem do seu próprio bem e o bem da própria sociedade...
Ui! Que medo doido de pensar!!!!

Wagner Fonseca, 12 de abril de 2016, 11:44 
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