segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Nos falta poesia nessa pandemia...

 


“A educação falhou”, diz um empresário do ramo de escolas de idiomas. Sim, ele está correto, a educação falhou: família, igreja, Estado e a escola, ou por acaso vocês acham que educação é só escola? falhamos enquanto sociedade, diariamente.

Falhamos quando elegemos nossos representantes políticos que escrevem as leis que justamente garantem que sejam eleitos para garantir que suas leis sejam escritas e garantidas para justamente garantir a perpetuação desse ciclo vicioso de corruptibilidade da vida social e política, da infância à falência vital.

Falhamos quando a vítima estuprada é culpada pelo estupro, falhamos quando aceitamos que essa mesma vítima seja comparada com uma “cachorra no cio” e falhamos mais ainda porque aplaudimos quem diz isso, porque muitos de nós concordamos. E continuamos indo até o mestre questionar-lhe o que fazer com a mulher infiel. Ele, agachado, escreve no chão. Será que hoje nos mandaria olhar primeiro nossos erros antes de julgar aos outros? Ou também agiria como os exemplos que temos visto? “Cidadão, não!”, ou, “Vocês têm inveja da cor dos meus olhos?”, ou quem sabe, “Aqui é o Messias, olhe com quem você está falando!”.

Não é o Brasil que está revirado, porque esse país ainda nem conseguiu se constituir seriamente enquanto povo ou nação, pelo menos não de forma madura, não é mesmo?

Nós olhamos as redes sociais por tempo suficiente para nos enojar porque as pessoas perderam o medo de expor suas fétidas camadas internas. Até bem pouco tempo atrás bastava manter as aparências e ir à igreja aos domingos, pagar seus impostos piamente e dizer aqui ou ali um pouco de seus preconceitos, num círculo limitado de intimidade. Geralmente entre aqueles que compactuassem os mesmos valores. Entretanto, gradualmente as pessoas que sofriam com os preconceitos começaram a se impor e exigir espaço, visibilidade e pararam de ter medo por ser quem são e como são, pois, antes de tudo, somos humanos, antes de tudo, somos seres vivos e, numa visão religiosa cristã, aos olhos do Pai, somos todos iguais. É, nesse quesito as coisas começam a se complicar...

Me pego olhando os botões da tela caixinha mágica e me pergunto se realmente vale a pena compartilhar tamanha mesquinharia alheia. Penso nos meus erros, nos meus pecados e preconceitos internos, reflito sobre meus julgamentos. Não torço eu também pelo fim disso tudo com a eliminação da espécie humana? Seria considerado um pessoa ruim ou insana por pensar isso? Ou tais pensamentos só surgem por visibilizar tanta maldade difundida pelas redes sociais e pela vida real mesmo? E não sou eu também um vetor dessa difusão de maldades e mesquinharias?

Tenso.

Suspiro, reflito.

A educação não falhou, tampouco a família, a igreja ou o Estado, muito menos a espécie humana falhou. Falhamos, isso sim, diariamente, e por esse motivo precisamos nos reinventar, rever nossos preconceitos mais arraigados, rever nossos vieses de violência com os quais muitos de nós acreditamos poder resolver tudo. Porque, se continuarmos a combater fogo contra fogo não restará nada além de cinzas daquilo tudo que um dia poderíamos ser.

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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Reflexos e reflexões de um cansaço que nos adoece


Estamos cansados em todos os sentidos. Cansados, fracos e adoecidos. Para alguns mais alarmantes é tudo um castigo divino, fim dos tempos, mas para estes é sempre assim. Qualquer coisa que acontece ou é o destino agindo ou outra força sobrenatural. Afinal, é sempre mais fácil colocar a culpa em algo que não se consegue compreender nem explicar, posto que compreensão e explicação exigem muito além da vontade e capacidade a que estamos acostumados. Invoque-se Deus ou o Diabo e tudo estará resolvido. Pelo menos no campo das culpas.

De qualquer forma, a pandemia nos cansou, o valente século XXI! Tal qual seu antecessor vivendo uma Belle Époque, crendo nos avanços científicos e tecnológicos, no avanço das ideias e do conhecimento que erigia a “casta” europeia sobre o restante do mundo e viu fenecer seus ideais em sangrentas guerras mundiais e nos totalitarismos. O polo se inverteu e a incomensurável força do progresso e conhecimento humanos foram novamente abalados, não pela nossa forte convicção em nossa sociedade, mas ao contrário: vimos alguns odiosos discursos contrários à ciência, por exemplo, terem que voltar essa convicção já um tanto abalada para travar uma guerra diferente. O inimigo agora é praticamente invisível, mata gradualmente o ser humano e “fere de faca” o sistema financeiro.

Se no século XX a crença no progresso, uma das características do pensamento moderno, não foi suficiente para livrar a sociedade humana da barbárie, criando a devastação bélica de duas guerras mundiais, no início desse século e, principalmente agora, vemos um embate dantesco entre a ciência e as superstições. Há quem diga que o discurso iluminista falhou e não se obtém mais sucesso a tentar-se iluminar as mentes humanas. A grande rede, a internet, tornou-se nosso “grande irmão orwelliano”, que a tudo vigia e tudo sabe de nós. E nós nos entregamos de graça, todo nosso conhecimento e, o mais importante de tudo: entregamos de graça à “Grande Rede” toda nossa santa e sagrada ignorância! No ápice de achar que sabemos algo, acabamos apenas nos passando pelo “tiozão do zap” que compartilha coisas porque sabe apertar um botão de compartilhar...

No fundo, e na superfície também, trata-se de controle, de controle de corpos e mentes, de educar sensações e sentimentos, de educar o olhar e a dor. Parece que há muita coisa, muita informação misturada nessas poucas linhas, como poderia ser diferente? Esse é o mundo em que vivemos, rodeados de uma miríade constante e crescente de informações que nos adoece tanto quanto outros minúsculos seres nocivos aos nossos corpos. Esses podem ser combatidos com remédios, mas como combater as ideias que nos rodeiam? Ou melhor, como equilibrar todo o poderio, toda a sedução que elas impõem sobre nós?

Até pouco tempo, o filósofo Foucault dizia-nos que vivíamos sob uma sociedade do controle, e ainda é assim em muitos aspectos. As regras, as leis e os decretos – lockdown – se tornaram palavras comuns nesses meses pandêmicos. De outro lado, Byung-Chul Han, filósofo coreano que vive na Alemanha, aponta que aquela sociedade do controle já tem seus dias contados ou já passou. Vivemos sob outra sociedade, uma sociedade do desempenho, do “eu posso”. Olhe ao seu redor e, pessoas que viveram a virada do século, lembrem-se como os discursos foram positivados. Ganhamos o poder de dominar nossos rumos! É o que dizem as palestras e os milhares de discursos, sejam de auto ajuda ou auto motivação. Então, uma pandemia nos tira todo esse poder de fazer as coisas. Como poderíamos não adoecer?

Uns “presos” em suas casas, como medo de um inimigo que mata sem ser visto. Uns “presos” na sua santa ignorância apenas esperando a próxima “fake news” que combina exatamente com a sua ideologia para poder compartilhar com um sorriso quase insano de quem acha que sabe algo. Outros “presos” na negatividade de não poder fazer as coisas que fazia antes da pandemia. No primeiro lapso, quebra-se a regra e bora curtir a natureza – antes só curtia o escritório.

Adoecemos com a doença física, com a cadeia mental, adoecemos por não poder fazer o que fomos educados desde cedo que podíamos. Muitos adoecem por não poderem sequer ter esses direitos. Alguma coisa temos que aprender até o fim dessa crise. O que, ainda precisamos descobrir.


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quinta-feira, 16 de julho de 2020

Nunca deixe de lembrar - Resenha






Nunca deixe de lembrar (Never look away), filme alemão do diretor Florian Henckel von Donnersmarck de 2018 nos traz uma obra de arte sensível e singela sem parecer em momento algum enfadonha. A sensibilidade do filme explode suavemente em cada camada de luz e cor que perpassa a película, saboreando-nos ainda mais com uma edição de som primorosa. As imagens dançam na tela com uma profundidade densa sem ser pesada.

O protagonista, Kurt Barnert, vivido pelo ator Tom Schilling é quem nos move por essa jornada cinematográfica, iniciando seu caminho ainda criança na Alemanha em princípios do totalitarismo nazista. Aliás, convém lembrar que o protagonista desenvolve-se por três períodos históricos que são amarrados muito firmemente ao mesmo tempo em que impregnam o personagem com as dúvidas de quem cresceu em mundos distintos.


Primeiramente, na infância de Kurt o vemos na cena inicial do filme visitando uma exposição de arte. Ao vê-lo guiado por sua tia imaginamos tratar-se dela quando na verdade ela é quem dá a base ao pequeno Kurt nesse mundo da arte. Mundo esse encravado agora no nazismo alemão que julgava depravada a arte que não servia aos ideais da grande pátria ariana. O primeiro contato de Kurt com esse mundo da arte é um embate entre a inocência da criança e a inocência/ingenuidade/loucura/liberdade da sua jovem tia. Elizabeth, a tia de Kurt, representa, de certa forma, esse misto de sentimentos que vão da loucura e inocência aos desejos ingênuos de liberdade. Que não nos percamos aqui: a tia pode ser ingênua, mas jamais louca numa acepção completa da palavra e protagoniza uma cena das mais simples e belas ao pedir uma sinfonia de buzinas aos motoristas de ônibus. Seu destino, infelizmente, torna-se o destino daquelas pessoas cujo caminho tratou de ser interpolado por um regime político dissonante de seus sonhos de vida. É nesse momento que a guerra entra em cena, de maneira rápida e concisa, o que é bom, pois o filme não tem a obrigação de tratar das desgraças beligerantes. Ponto favorável, nesse sentido, ao mostrar o desenvolvimento de pessoas comuns que foram infringidas pelo peso esmagador do nazismo e de um conflito bélico avassalador. Sem desmerecer o sofrimento de outros povos, o filme traz esse ponto de vista que poucas vezes vemos no cinema e fica expressa em uma fala do pai de Kurt ao procurar emprego no pós-guerra: “Oras, três quartos dos professores eram do partido!” E por esse motivo ele não consegue emprego, situação que já serve de gancho para pensar-se como a hegemonia nazista introjetou-se no seio de cada instituição da sociedade alemã, nesse caso, a escolar.

Passado o horror da guerra, temos então um novo período de reconstrução na vida do nosso personagem Kurt, já adolescente tendo que enfrentar todos os problemas de um novo regime: sua Alemanha agora vive sob a égide de outro sistema, o socialismo soviético, no qual Kurt vai se estabelecer como artista do povo. O “militante das tintas e pinceis” não milita e nem demonstra alguma forte convicção política, estética ou mesmo moral pelo regime. O que percebe-se é uma pessoa comum, outras pessoas comuns atravessando os difíceis momentos de uma época, de um totalitarismo a outro e tendo que sobreviver com muitas ou poucas expectativas a realidade ditada, hora por um regime, hora por outro. Entretanto, não se trata de pura apatia, conveniência ou total desconhecimento da realidade, mas tão somente a sobrevivência cotidiana.

Concomitante à vivência de Kurt desenvolve-se a história do médico Carl Seeband (Sebastian Koch), o qual exige ser tratado como “professor” a todo instante. O seu orgulho em fazer parte do regime nazista é auto evidenciado em sua própria existência, da fala à postura. É ele quem define o rumos da história de Elizabeth, a tia de Kurt, representando fielmente a crença nazista da eliminação dos fracos e doentes, sejam físicos ou mentais. O talento médico de Seeband é utilizado dentro do pensamento totalitário de elevar o nível da raça pura subtraindo da sociedade aqueles e aquelas cujos traços genéticos não condizem com a perfeição. No entanto, seu orgulho em ser o melhor médico o leva do nazismo ao socialismo em uma transição quase natural para aqueles que perseguem o poder e fazem de tudo para manter-se no topo acreditando-se vigorosamente que é o melhor dentre os melhores.
Elizabeth, a tia de Kurt, interpretada pela atriz Saskia Rosendahl
Herr Professor emoldura outro lado da história, um quase contraponto direto ao personagem de Kurt que, agora, estudando na faculdade de artes, vê novamente outra pessoa ditando-lhe o que vem a ser a arte. Se, no início do filme a arte é desprezada ou engrandecida conforme o ideal nazista, a partir da segunda parte do filme ela é estabelecida segundo os ditames do realismo soviético, pois o artista deve ser aquele que tinge os sentimentos da pátria e do povo com os traços fortes de uma realidade que nada tem de abstrata. Vemos então o professor de Kurt fazer seu discurso apontando as falhas de uma arte burguesa ocidental capitalista maculada pelo eu. “Sempre o eu, eu, eu!” Nada mais concernente com o pensamento do socialismo soviético, que no filme apresenta, pode-se dizer, o indivíduo se diluindo em nome do coletivo. Sua arte deve, assim, representar esse ente maior que é o coletivo acima de todos. Se o pai de Kurt fora um professor adepto ao nazismo por obrigação, caricaturando um “Veil Vinkler”, seu professor socialista na faculdade de artes emociona-se com o potencial do jovem Kurt em dar cor e forma aos anseios artísticos do regime.

É nessa fase que o jovem Kurt conhece o amor e também aqui um ponto favorável ao filme em mostrar toda a simplicidade e profundidade de uma trama em que dois jovens apaixonam-se. O amor aqui é tratado como uma história que deve parecer familiar a muitas pessoas. Uma escapada espetacular, uma mãe que já sabe de tudo, simpatiza com o namorado da filha mas nada conta. Um pai característico de uma época que quer apenas o “melhor” para sua filha. O seu melhor, não o melhor que ela busca. Todavia, em se tratar de uma história de amor, também a história de Kurt Barnert e Ellie Seeband – interpretada pela talentosa Paula Beer – passa por cima de todos os obstáculos que podem enfrentar, inclusive a repulsa de um pai autoritário que demonstra seu autoritarismo e repulsa sem deixar de ser, de certa forma, refinado. Algo nos leva a pensar: o pai foi nazista por ter sido doutrinado no regime ou já trazia dentro de si todo um ideal de existência que apenas aflorou durante o Reich? É de fato muito interessante pensar as camadas e nuances que se estabelecem na figura de Herr Professor, visto que de tão bom nazista tornou-se um bom socialista também, mesmo que possamos duvidar dessa camada da figura pública que ele encarna perante a sociedade. A crítica aqui nos revela algo que todos nós sabemos: há um modo de ser público e um modo de ser privado. Bem, pelo menos para o pai de Ellie. Kurt, por outro lado é uma pessoa simples, quase um livro aberto, sendo quem ele é em todos os lugares em que está. Obviamente essa abertura livresca não caracteriza nem superficialmente sua personagem, pois suas camadas são mais reveladas ao público que assiste a obra do que aos outros personagens da trama, nem mesmo à sua esposa. Ellie nunca fica de lado durante a história, vivendo cada decisão de Kurt, sofrendo o autoritarismo do pai e sendo mais que uma mera coadjuvante.

Outro momento histórico surge no filme como um parágrafo surge em uma história e marca o início da terceira parte na jornada de Kurt e de Ellie. Vemos o casal saindo da Alemanha Oriental pouco antes das portas se fecharem com a construção do Muro de Berlim. Assim ambos deixam para trás dois regimes totalitários que marcaram suas vidas, no corpo e na alma, literalmente. Tanto na alma de Kurt quanto no corpo de Ellie, ferida propositadamente por uma ideologia de superioridade de uma raça que não deveria se misturar com outra de menor significância.

No moderno mundo capitalista ocidental surgem agora novas possibilidades de existir e o passado pode ser apenas o que ele é: passado. Mesmo que suas marcas acompanhem o ser de Kurt e Ellie. É nesse novo mundo em que não há espaço para totalitarismos que Kurt vai tentar procurar sua arte. O que é muito importante para ele e instigante, pois a mensagem que lhe passam não deixa de ser totalitária: se você já tem trinta anos e não criou nada ainda, você já era. A realidade mais uma vez esmagando quem procura ir além daquilo que lhe é dito. Esse é o novo desafio para um artista cuja busca pelo estilo próprio pode ser agora mais tempestuoso do que imaginava ser antes. Pode-se inferir, inclusive, que a todo instante tentam dizer a Kurt o que a arte deve ser, o que a arte é, porém, o que ele nunca deixa de lembrar e o filme faz questão de nos recordar é que a arte é, antes de tudo, uma busca de liberdade. Uma busca que custou a sua tia mais que sua própria liberdade. Mas uma busca que deixou marcas tão profundas em Kurt que nem mesmo sua situação econômica foi capaz de derrubá-lo. Nem mesmo as artimanhas de seu sogro foram capazes de destruir em Kurt sua busca pelo seu talento. 
       
A obra do diretor Florian Henckel von Donnersmarck mais uma vez nos toca assim como já havia feito em sua outra película, “A vida dos outros”, de 2007. Ao estabelecer os totalitarismos que esmagaram a história alemã, o diretor também nos faz pensar sobre os totalitarismos diários que aqui e acola açoitam nossas decisões diárias.

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

A beleza de cada estação



Recentemente passamos por uma forte onda de calor aqui no Sul e mesmo no Brasil todo. Reclamações diversas temperam nosso cotidiano virtual e real sobre o calor extremo. E lá vamos nós discutir qual estação é melhor.

Precisamos ver a beleza de cada estação. Não haveria vida sem esse ritmo de mudanças, como diria o filósofo pré-socrático Heráclito. A mudança é cerne de toda vida, por isso temos as quatro estações num ano. Há quem diga que aqui em Santa Catarina nós enfrentamos até seis estações, quando não as enfrentamos todas em uma única semana e até num único dia!

Cada momento traz a maravilha de podermos sentir essas variações tão importantes para nossas vidas, para nosso crescimento. O calor do verão e seus banhos de mar, rios, lagoas e cachoeiras. O sol lambendo a Serra nos finais de tarde do outono ainda indeciso, hora quente hora frio. Como não se encantar quando na sexta-feira, no final do dia sol e nuvens e vento compõem uma sinfonia do retorno do inverno lá pelo mês de maio?! E, no mesmo mês, um veranico para nos recordar que a vida precisa de calor para viver. 

No frio do inverno nos recolhemos, damos atenção à coisas mais íntimas, a comida torna-se uma tentação! Alguns meses e o colorido da primavera começa a ensaiar seus passos em agosto. Retornamos de nossa “hibernação” aos poucos mais uma vez para reencontrar outro movimento da vida. 

Todo esse processo de vais e vens é fundamental para a manutenção da nossa existência. De nada adianta continuar nessa inglória disputa de qual estação é a melhor. Bom mesmo é deixar a vida acontecer, a natureza não depende de nós, porém o contrário é verdadeiro. Às vezes se torna difícil aceitar o frio ou o calor extremo, como todo extremo o é. Que tal deixarmos de lado as corriqueiras reclamações sazonais e curtir o que de melhor usufruímos em cada estação? Afinal, ontem invernou, hoje primaverou, amanhã veraneará e depois outonará. É o nosso eterno ciclo do existir.
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O fanatismo do brasileiro beira o totalitarismo




Uns poucos minutos nas redes sociais e o enjoo vem fácil. A internet é uma grande provedora de “relativismos” frios, algumas vezes desconexos e também agressivamente abusivos. Quando não contraditórios. Para cada acusação de um lado qualquer há outra prova em contrário do lado acusado. Observem atentamente cada “debate” proporcionado na rede. Sempre há quem tenha outras informações que contradizem aquilo que antes foi dito e aí começam as brigas corriqueiras.

Poder expressar nossos pontos de vista é uma conquista democrática, herança iluminista da Revolução Francesa (ah, sem esquecer o fundo liberal do Iluminismo, antes que eu seja acusado de ser só mais um esquerdista! Bah!). Bem, é graças ao direito de expressão democrático que eu posso me considerar alguém de esquerda. Isso não me impede de ter amigos de direita. Muito menos sou impedido de ter amigos que sequer sabem as diferenças (e semelhanças) de ambos e também nada me impede de ter outros amigos que vêm tentando superar essa dualidade. Uma baita desafio.

Por outro lado, voltemos às nossas redes sociais e os seus “profícuos relativismos”. Tente argumentar em alguma postagem sobre política ou religião. Não, caros amigos, não existe isso de que política, futebol e religião não se discutem. A única coisa que não discutimos é aquilo que não entendemos, não conhecemos, por isso só ouvimos, para aprender. Por outro lado, ainda, na internet ou no dia a dia mesmo, discussão virou sinônimo de disputa e quem disputa quer vencer. Discussão, por outro lado também (por favor, perdoem-me a repetição), não precisa ser vencida, precisa apenas ser discutida, no intuito de que pontos de vista divergentes possam, ao menos, serem ouvidos entre si.

Empatia, alteridade, se coloque no lugar do outro antes de julgá-lo. Não é um exercício fácil. A internet, já sabemos, não é um território sem leis, há regras explícitas e outras que vêm da boa educação de casa. Aí veremos novos problemas e soluções parecerem apenas conceitos abstratos.

Eu proponho uma experiência bem “simples”: crie um perfil fake contrário às suas ideias. Por exemplo, seja de direita quando for de esquerda e vice-versa. Tente expor “suas convicções” publicamente. Pode ser doloroso, mas qualquer pessoa bem intencionada, educada e com um mínimo de discernimento, não tem necessidade de tal artifício. Basta observar o fanatismo psicótico que se espalha.

Na democracia que vivemos você ainda pode optar ser de esquerda ou de direita e isso pode dizer muito ou pouco sobre você no final. Entretanto, quando você vê o erro, a falha, o pecado, a imoralidade apenas em um lado da situação, você está caminhando rumo à uma visão totalitária (muitas vezes fundamentalista!). Num passeio rápido pela web podemos perceber política e religião mesclando-se num perigoso monstro de ódio contra tudo o que for contrário à visão de quem aponta o dedo.

Se eu sou da esquerda e enxergo o erro apenas na direita, já expresso aí minha miopia em relação ao mundo. Se sou da direita e creio que o mundo será melhor se eliminarmos a esquerda, então sou totalitário, antidemocrático e isso nós vemos nos dois lados. Contudo, eu preciso também demonstrar o lugar de onde olho para o mundo. Penso que pode ser possível um dia em que superemos essa dualidade política, porém, não tenho tantas esperanças assim. Me incomoda e assusta o quanto as pessoas ao meu redor não se preocupam mais com suas máscaras. Inocência e ingenuidade de um iludido poeta, pois agora as pessoas vociferam tudo aquilo que sempre pensaram sobre os outros e assim os tratam: não são seus próximos, são apenas outros e, como outros, devem ser excluídos ou eliminados.

Fobia social e reduzido círculo de amigos já despontam como horizonte mais palpável a cada dia. Que a banalidade do mal não converta os livres pensadores nos próximos “outros” a serem eliminados, embora já saibamos estar ali classificados.

03 de janeiro de 2019 




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