quinta-feira, 2 de abril de 2015

S.O.S. PROFESSOR! S.O.S. PROFESSORA!



Recentemente no nosso movimento da categoria de professores da Santa Catarina me chamou muito a atenção uma bandeira inscrita: “SOS EDUCAÇÃO”. Pensei muito sobre e conclui que a bandeira está errada. O “SOS” não é pela educação, é pelo professor, é pela professora...

Me enche de raiva o coração, porque de tristeza não dá mais. Aliás, eu não sei ao certo qual sentimento ruim se apossa do meu ser quando assisto nosso secretário da educação falando na tevê. Muito menos quando ouço a própria tevê. Não, não ela, mas um comentarista que cedo nos brinda com pérolas sobre o magistério catarinense. Faltam-lhe informações, creio eu, ou no mínimo boa vontade (seria má fé?). Como, exemplo do que fora dito uns dias atrás: “um professor é contratado por 40 horas e trabalha 10”; “como pode um professor trabalhar por um período e ganhar por outro?”; “um professor trabalha mais do que aquilo pelo que foi contratado”. Estranho não? É, confunde a todos. Porém, o pior de tudo é o fato de sempre baterem na mesma tecla: “quem perde com tudo isso é o aluno, que é o elo mais frágil...” E o professor e a professora, é ainda algum elo?

É por isso que digo, quem pede “SOS” não é a educação, somos nós, professores e professoras. É, nós que trabalhamos doentes, afinal, um ACT não pode pegar atestado com mais de um dia. Nós que distribuímos o livro didático para os alunos rodopiarem no dedo, jogarem no chão, perderem ou nem sequer levar para casa. Ou levam e nunca mais tocam nele.

Há professores ruins? Ah, para com isso! Profissionais ruins há em qualquer profissão. Há alunos ruins? Claro que há, quem seria louco de dizer que todos são bons? Entretanto, há muitos e muitos bons alunos e alunas. Quando cheguei à escola ontem vários alunos e várias alunas vieram me perguntar como eu estava, se estava tudo bem (sofri um pequeno acidente semana passada). Essa atenção e carinho não tem preço e nenhum governo consegue mensurar o quanto isso é importante e precioso! Agora, um governo que diz que vai melhorar a vida do professor ACT, por exemplo, economizando 40 milhões mensais do FUNDEB, está preocupado com educação ou escola? Desde quando educação é gasto???? Acordem, educação é investimento!

Quer saber o quanto a educação está precarizada? Pergunte em qualquer sala de aula quem quer ser professor.

Pra resumir: fizemos uma greve gigante em 2011 pelo cumprimento de uma lei que o governo de Santa Catarina foi contra em 2008, em 2009 e em 2010. Não a cumpriu na sua totalidade em 2011 nem a cumpre ainda. Milhares de alunos tiveram aprovação automática e agora temos dificuldades em sala de aula. Eu não quero apenas um salário melhor, eu quero uma perspectiva de melhorias para minha carreira, para minha profissão e para a sala de aula. Esforço-me para fazer a minha parte e o que ganhamos em troca? Tirania, da mídia e do governo.


É um desabafo de um professor, já se tornou um lugar-comum este tipo de desabafo. Enquanto havê-los, a educação, o professor, a escola estarão pedindo SOS...


(texto do início do mês de março)
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sábado, 28 de março de 2015

Vamos às ruas?





Em 2013, por volta do mês de maio, discutia com alguns amigos pelo facebook o meu medo que crescia em relação à direção que nossa sociedade estava tomando. À época ainda participava ativamente de uma comunidade no extinto orkut onde debatíamos coisas análogas. Em menos de 15 dias vimos as inúmeras manifestações públicas varrerem o país e a mídia criminalizando cada manifestação genuína.

O tempo passou, veio a copa e veio a vaia...

Passou mais um tempo e vieram as eleições e o resultado e toda a agitação política. Amizades foram postas em pé de guerra em nome da política, um grave erro. O ser humano é um animal político, como já dizia Aristóteles há séculos, o que nos leva a entender que cada um de nós atua politicamente em sociedade. Isto se dá pelo fato de mantermos relações sociais e de poder constantemente. Neste exato momento escrevo este texto justamente pelo poder que tenho: viver numa sociedade que é livre para pensar. Ainda...

No ano de 2013 as manifestações passaram de violentas para democráticas em questão de instantes na mídia. Todos os arruaceiros foram culpados e o povo pôde finalmente sair às ruas pedindo tudo e quase nada ao mesmo tempo. Lembro-me de ler na revista veja que o padrão dos manifestantes era de classe média média, tendendo levemente à alta e baixa. Ao conversar com um amigo, ex-aluno, que participou de uma grande manifestação em Criciúma, o mesmo me contava a decepção que sentia em estar lá: “Meus colegas de trabalho não quiseram vir. Disseram que não era lugar para trabalhador...” Conversamos muito sobre e questionei quantos como ele havia visto por lá. Outra decepção. Assim são as coisas, assim é a sociedade. E não posso generalizar por um único evento.

O que me deixava interessado pelas manifestações da época eram justamente as falas: “Não é um movimento político!”. Como não? E como proibir a participação de partidos políticos? Estratégia interessante, afinal se dizia naquele momento: “Ei, partidos políticos, não confiamos em vocês! Não venham levantar suas bandeiras neste espaço do povo!” Passado tudo isso, nos vemos nas eleições de 2014 e muitos daqueles contrários à participação política dos partidos nos movimentos sociais do ano anterior depositaram suas esperanças e frustrações em milhares de representantes de partidos políticos nas urnas. Seria uma contradição? Podemos pensar sobre. O fato é que, passado as eleições, as amizades continuaram a serem desfeitas durante outubro e novembro do ano em questão. Comentários ácidos nas redes diziam: “faço parte dos tanto por cento de brasileiros com orgulho...”, ou algo parecido. Resumindo, segundo os eleitores de Dilma Roussef, 49% dos eleitores são elitistas e estão desgostosos com as políticas sociais implantadas na Era Lula em prol do povo mais carente. Logo, eram pessoas ruins (vou usar este termo na falta de outro). Por outro lado, vários dos 49% diziam palavras parecidas: “51% dos brasileiros é burro, analfabeto, preguiçoso e acha que o Brasil vai bem”. Devo ter errado, mas li coisas assim. Estes 49% ainda estendiam sua raiva (seria isso?) a outra porcentagem, eleitores que votaram nulo, em branco ou os que se absteram. Esses, segundo aqueles, são os mais perniciosos, aqueles que poderiam ter decidido, mas não quiseram participar, os covardes (como li em alguns ‘insultos’, na falta de palavra melhor).

Mastiguei cada coisa que li na época, cheguei a pensar em excluir pessoas da minha lista de contatos, mas não o fiz. Vivemos numa democracia liberal representativa, a qual me permite pensar como penso e falar como falo. Permite-me um pouco mais de liberdade, liberdade esta que jamais existirá num regime autocrático, num regime absolutista ou numa ditadura militar (ou outra ditadura, seja de esquerda ou de direita). Decidi não comentar e apenas viver. Porém, 2013 não morreu, ele continuou até 2015.

Hoje ainda vemos pessoas, algumas esclarecidas, e isso é importante, pois cada um de nós que possui um mínimo de discernimento sabe exatamente onde nossos atos podem nos levar. Nem de longe desejo um regime político que poderá cercear minha liberdade ou de meus compatriotas, sejam eles defensores das mesmas ideologias que movem minha vida ou não! Todavia, não posso também me calar ante as atrocidades sociais orientadas pela falta de conhecimento da história, da política ou do próprio pensar humano. É este mesmo motivo que me leva muitas vezes a refletir sobre cada erro que sai de minha boca ou de meus atos. Refletir e se desculpar quando for preciso. Refletir e discutir quando for preciso. Refletir e agir quando for preciso. Contudo, nada disso muda o fato de que nossa vida em coletividade é tão ou mais importante que qualquer mera opinião forjada no calor das emoções (estas mesmas que afetam meu pensar neste instante).


Se tenho certeza de meus atos? Claro que sim, os repenso a cada instante. Sei que a mudança começa em mim e sei também que não devo esperar por mim só apenas. Pois sou passível de erro, de falha, de dúvidas. Por isso volto meus olhos à HISTÓRIA sempre e sempre. Os erros do passado estão sempre batendo em nossas caras. Enquanto forem eles, ainda haverá esperança. Quando forem cassetetes, bem, será que teremos tempo de encontrar os erros para aprender?

15 de março de 2015
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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Meus amigos



Tenho amigos ateus
Tenho amigos evangélicos
Tenho amigos umbanda
Tenho amigos pró-ciência, contra religião
Tenho amigos religiosos contra a ciência
Tenho amigos de esquerda, da extrema esquerda...
Tenho amigos de direita, da extrema direita...
Tenho amigos que mal sabem o que é política, filosofia, ciência ou religião
Tenho amigos "zero" em qualquer assunto e tenho amigos metidos em tudo!
Tenho amigos gays
Tenho amigas lésbicas
Tenho amigos machões e amigas "sapatões"
Tenho amigos pretos, brancos, pardos, café com leite, leite condensado...
Tenho amigos presos e até amigos sepultados...
...
Tenho amigos sozinhos, outros bem e outros mal acompanhados...
Tenho amigos zen e outros mal humorados...
Tenho amigos que têm e outros quase nada
Tenho amigos fajutos, "falcatruas", "vida-loka", e sangue "no zóio"
Tenho amigos punks, amigos funk e revoltados
Tenho amigos do Sul que querem o Sul só para eles
Tenho amigos do Norte, que, para minha sorte, também gostam do Sul
Tenho amigos aqui e ali e em qualquer lugar
Tenho tantos amigos que até tenho medo do que falar
Sem querer, um deles eu posso magoar...
Podemos pensar diferente, até discutir, quem sabe discursar
A única coisa que não devemos é deixar nossas diferenças
Nossa amizade terminar...
Wagner Fonseca, 26 de janeiro de 2015
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domingo, 7 de setembro de 2014

Direitos e Cidadania em sala de aula: um debate constante



 

Quando falamos em direitos suscitamos ideias contraditórias. Por exemplo, como falar em direito à escola para quem não quer estudar?

Essa breve, porém real introdução, nos impõe uma série de questões imbricadas na nossa condição de cidadãos. Afinal, tal condição nos permite pensar nas limitações que as leis nos trazem e também na proteção que deveriam nos dar.

Em minhas aulas ouço muito a cobrança de sujeitos de direitos: meus alunos e minhas alunas. Sujeitos que agem, refletem, trabalham, vivem dias cheios das responsabilidades juvenis. Sabem muito bem cobrar o que entendem ser seus direitos. Infelizmente, ainda são poucos os que procuram entender além de cobrar.

Ser cidadão exige entender seus direitos. Mais que isso: exige compreender a qualidade de cidadão do outro. Um pouco mais: respeitá-lo enquanto tal. É tudo o que procuro em sala de aula.

Conversar quando é para conversar, ouvir quando for para ouvir, silenciar nos momentos necessários á concentração. A sala de aula é o espaço público da juventude, seu espaço, um espaço compartilhado, por isso as regras são tão necessárias, tão evidentes, tão imprescindíveis. Respeitar colegas e professores é um ótimo exercício de cidadania, um início para futuros adultos sujeitos às limitações jurídicas impostas a todos os cidadãos e cidadãs.

Estudar: um direito. Ser estudante: um momento. Compreensão: um aprendizado. Se conseguir que tantas mentes incautas alcem seu voo rumo á tão almejada liberdade compreendendo suas limitações, ficarei feliz. Se aprender a conviver com ele e eles consigo mesmo, então terei êxito.

28/08/14
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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Professores enrascados



Minha luta como professor torna-se a cada dia mais complexa, e porque não dizer, mais complicada. De um lado o pensamento de esquerda dos dirigentes sindicais, de outro lado o pensamento de direita de todos aqueles que culpam os professores. Ambos, porém, criticam o governo. 

Aos esquerdistas tradicionais, o governo investe pouco em educação, seja na estrutura física e didática, seja no salário dos professores. Daí surgiu também a briga por 10% do PIB para a educação. Eu, particularmente, acreditei nisso, porém, em seguida desacreditei. E por quê? Porque empreendi uma greve de 62 dias pelo cumprimento integral de uma lei (UMA LEI!) que garante o piso (!) para nossos salários. Não posso e não consigo acreditar num governo que precisa criar uma lei para que professores possam ter um salário melhor. Pior ainda é esperar algo de um governo que se nega a cumprir integralmente tal lei. Esperar, então, que sejam investidos os 10% do PIB é quase sonho... 

Aliás, é o ponto onde queria chegar. Li hoje uma matéria de uma revista onde um conceituado economista discorre mensalmente sobre educação. Na matéria ele afirma o quanto nós professores estamos “enrascados”. Nossos dirigentes nos ludibriaram durante anos e nós seremos cobrados no futuro assim que os 10% serem investidos e os professores não apresentarem os resultados necessários. A sociedade cobrará! Ainda, segundo o mesmo articulista, os professores sofrem da “síndrome de vitimização”, e nesse ponto posso afirmar por experiência própria que ele não está errado. Por inúmeras vezes vi, ouvi e também me vitimizei a tal ponto de odiar essa “síndrome”. Fui criado num tempo em que o trabalho ainda era um valor e por isso valorizo minha profissão. Para tanto, não posso desprezar meus ganhos salariais, do mesmo modo que não posso reduzir minha profissão ao nível financeiro apenas. 

Tanto que já escrevi sobre a educação... Fui contra a avaliação dos professores, hoje sei o quanto é necessária, embora sei também que é apenas um paliativo, não podendo se tornar uma constante. Ela poderia se tornar apenas um “vício”. O que importa é que nós professores precisamos de formação continuada e a partir disso avaliar e reavaliar-nos constantemente.

Não acredito que 10% do PIB pode ajudar a educação. E por que digo isso? Porque a educação não é compromisso único dos professores, tampouco das famílias. A educação é um compromisso social: da família, a célula primeira da sociedade, a base de cada indivíduo, o lar tão matizado, despedaçado e desestruturado. A escola, obviamente, o lócus que deveria ser privilegiado é hoje comparada a uma zona de guerra. Para mim já está muito difícil arrumar respostas do por que os alunos devem estudar. Convencê-los é um calvário... Adicione aos problemas da escola todos os problemas causados por legislações desvinculadas da realidade... 

Quando converso com meus colegas de profissão o que mais ouço é que falta disciplina e responsabilidade. Muitos falam mesmo que deveríamos voltar a lecionar como nos tempos antigos, com cobrança real mesmo e não esse faz de conta que se tornou a educação escolar brasileira. Aos alunos todos os direitos e garantias de se dar bem fazendo pouco ou quase nada. Aos professores, “batatas”. 

A educação é, também, um compromisso dos meios de comunicação, notadamente a televisão e o rádio. Querendo ou não, são tais meios de comunicação que educam as famílias brasileiras, transmitindo-lhes informação política, cultural, científica, artística, religiosa e legal. A meu ver, ligo os pontos aqui do por que investir em educação (10% do PIB) não resultará em benefício. O Brasil precisa de uma revolução, mas ela não começa apenas pela escola ou universidade. Aliás, a universidade merece um tratamento a parte. E da mesma forma a palavra revolução, pois não me refiro a uma revolução comunista (e hoje penso que talvez nunca tenha acreditado nela realmente...), mas uma revolução política e social, uma revolução que transforme o povo brasileiro num ser mais preocupado com questões concretas de sua vida e do seu futuro. 

Nesse ponto me pergunto: qual o compromisso do Estado, dos meios de comunicação e das classes dirigentes deste país com a educação como um todo (escolar, familiar e social)? Ou vamos apenas engolir o papo da direita que acusa a “esquerdopatia” de transformar o povo em massa bestializada de controle rumo a revolução gramcista do Brasil? Aliás, e apenas engolir a ideia liberal de livre mercado e competitividade predatória da Natureza e daquilo que chamamos ser humano? 

Algumas verdades parecem não mudar. Os extremos se distanciam para se encontrar nas pontas: os que ficam no meio, bem, ‘nos meios’, são metralhados impiedosamente. E aqueles em cada ponta mal percebem a “burrice de sua unanimidade”. Ou outra verdade, que jamais devemos generalizar (como eu mesmo o fiz agora acima). Afinal, a livre iniciativa é algo bom, ao passo que a competitividade embasa o progresso. Mesmo assim, um pouco de regulamentação não faz mal algum à ideologia do progresso. 

E, só para recordar, o economista citado anteriormente, professor tira sim leite de pedra. E novamente, sem generalizações, porque enquanto alguns de nós se esforçam ao máximo, uma grande parte se acomoda na síndrome da vitimização. 

Quando assumi meu compromisso em sala de aula o fiz em nome de meus iguais (agora nem tanto, pois minhas condições financeiras melhoraram um pouco), e esses iguais moram e vivem neste país. Compartilhamos uma história de cinco séculos em comum. Compartilhamos um presente caótico e um futuro imprevisível. Em nome desse futuro tento e me esforço em oferecer meu melhor para que meus alunos possam dividir um futuro em comum melhor para nós. É um esforço em vão? Não quero crer nisso, mesmo que seus celulares sejam mais importantes que suas próprias vidas. Eis um ponto que merece também uma avaliação. 

Encerro por aqui. Imponho a mim mesmo este futuro quase intangível como minha ideologia em particular... 

Professor Wagner Fonseca - 02/ junho_14
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