quinta-feira, 30 de abril de 2015

Ode à violência



Louvores de ódio sejam dados a todo momento
Louvores de ódio
Louvores de ódio, que no pão é fermento
Louvores de ódio

Gritem alto, muito alto quem quiser
Gritem alto, muito alto para se ouvir!
Gritem alto, muito quem puder
Grite alto, muito alto quem sentir!

Chamem os senhores da dor!
Neguem o amor a qualquer ser!
Clamem aos senhores da dor!
Neguem todo bem que vier!

Louvores de ódio, o medo dos mestres!
Louvores de ódio, sejam dados em todo momento!
Louvores de ódio, medo nos mestres!
Louvores de ódio, raiva sem impedimento!

Matem! Fuzilem! Massacrem! Aniquilem!
Tudo que for belo!
Tudo que for desejo!
Tudo que for afeto!

Matem! Fuzilem! Massacrem! Aniquilem!
Quem for diferente!
Quem for diferente!
Quem pensa diferente!

Louvores de ódio sejam dados a todo momento!
Morte ao diferente!
Louvores de ódio sejam dados a todo momento!
Não pense diferente!
Louvores de ódio sejam dados a todo momento!
Queimem!
Matem!
Espanquem!

Acabem com o homem sábio,
Acabem com a mulher sábia,
Acabem com a criança antes de sonhar
Acabem com vida antes de imaginar
Acabem com tudo antes de criar
Acabem com a vontade de ousar!
Queimem os livros!
Queimem os quadros!
Quebrem os pincéis!
Quebrem os vasos!

Sufoquem as flores!
Sujem as águas!
Sufoquem as ideias!
Sujem imaginação!

Retraiam o movimento!
(Louvores de ódio em cada momento!)
Retribuam ao movimento
Com espadas de aço e veneno!

Quebrem os ossos,
Faça-os sangrar!
Quebrem os ossos,
Faça-os chorar!

Louvores de ódio em cada momento!
Nas mentiras iluminadas, nas caixas vazias!
Louvores de ódio em cada momento!
Nas mentes paradas nas caixas vazias!

Acabem com o homem sábio,
Acabem com a mulher sábia,
Acabem com a criança antes de sonhar
Acabem com vida antes de imaginar
Acabem com tudo antes de criar
Acabem com a vontade de ousar!

Louvores de ódio, o medo dos mestres!
Louvores de ódio, sejam dados em todo momento!
Louvores de ódio, medo nos mestres!
Louvores de ódio, raiva sem impedimento!

Matem! Fuzilem! Massacrem! Aniquilem!
Tudo que for belo!
Tudo que for desejo!
Tudo que for afeto!

 por Wagner Fonseca, 30 de abril de 2015

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terça-feira, 7 de abril de 2015

Ilhas verdes entre a lavoura



De cima do morro observam-se as diferentes gradações do verde que se estendem pela paisagem. Há uma memória coletiva entre os 'colonos' e também entre os moradores da cidade que associa a roça com mato. Há, contudo, realmente, pouco 'mato' na roça.

Nosso primeiro desafio é definir o que se entende por mato. O mato pode ser a erva daninha que cresce no quintal de casa ou no jardim. Pode ser também a 'capoeira' espalhada às margens das rodovias municipais e outras. O morador urbano chama de mato a roça querendo dizer que lá só encontra-se mato e mais mato (como se houvesse muita floresta lá). Lembro-me de uma conversa entre meu pai, minha mãe e eu sobre aquele pouco 'mato' no meio do arroz. Me pai e eu concordamos tristemente sobre aquela situação: como o 'mato' se sufocava entre a lavoura. Minha mãe, por outro lado, enfatizou o fato de os colonos deixarem aquele mato à toa. "Porque aquele mato lá? Porque não derrubam pra plantar?"

A foto em anexo foi feita por mim, sexta-feira, 03 de abril, de cima do Morro Comprido, na comunidade homônima, no município de Forquilhinha, Sul catarinense. Quando estamos lá em cima temos uma visão do que nós temos hoje: pequenas ilhas de verde em meio às lavouras. Estamos sufocando o pouco que nos resta da mata nativa original. As consequências já sentimos.

Muitos olharão apenas pelo lado do agricultor, da economia, da quantidade bocas para alimentar, etc, etc. Sim, eu sei, você sabe, todos nós sabemos o quão importante é a produção de alimentos para a humanidade. Todos sabem o quanto esta evolução foi importante para nós chegarmos até aqui. Todavia, não é uma imagem interessante por si só? Uma "ilha verde" sufocada com suas raízes na terra entre o verde também da lavoura?

Produzir mais e crescer sempre, eis a nossa meta diária. Mas será que lembramos que temos limites a obedecer? O que a Natureza nos reserva ainda? Olhem no Google Earth e verão mais claramente como temos pouca reserva de mata nativa ou secundária, pouco importa. Há, é óbvio, inúmeras implicações socioeconômicas imbricadas na análise desta imagem, afinal, qual seria a medida correta a se tomar quando observamos tal situação?

A agricultura se realiza por meio da destruição da natureza, é assim que temos feito a milhares de anos. Podemos cultivar a terra de forma menos agressiva? E quem se interessa por isso? E qual seria o ganho real em dinheiro para quem ousar? Porque tudo gira em torno disso não?


Se não preservarmos o pouco de mato, "capoeira", o pouco de mata que temos, o que teremos a preservar no futuro serão apenas recordações...
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segunda-feira, 6 de abril de 2015

O que é ser um poeta?



Ser um poeta é ser um solitário entre as muitas pessoas, principalmente quando se está entre muitas pessoas.

Ser um poeta é ser sofredor alegre e fazer dessa tristeza os versos mais profundos e melancólicos e se alegrar por causa disso.

Ser um poeta é ser um palhaço triste, que faz os outros rirem enquanto chora por dentro.

Ser um poeta é seu um sonhador mesmo quando o mundo à sua volta o impede do sonhar, mesmo contra as pessoas que insistem em te acordar dos teus sonhos acordados te desmereçam por sonhar.

Ser um poeta é, ainda assim, ser um sonhador. Um sonhador dos versos livres em meio às correntes impostas pelos políticos, pelas igrejas, pela ciência, pela filosofia e pela arte.

Ser um poeta é ter um orgulho calmo de ver algo onde a maioria apenas enxerga linhas em branco.

Ser um poeta é ter um medo quieto do cerceamento da liberdade onde a maioria apenas enxerga a imposição de suas vontades. Ser poeta é tentar mostrar às pessoas que suas vontades nem suas são de verdade. Ser poeta é mostrar às pessoas que elas podem ser escravas das próprias vontades...
Ser um poeta é ir aos mesmos lugares de sempre e sempre encontrar aquelas coisas diferentes que a maioria nunca consegue encontrar. A maioria não gosta de visitar os mesmo lugares...

Ser um poeta é viajar para lugares diferentes, distantes e levar consigo tudo de bom e ruim que existe no lugar onde vive. O poeta é um caramujo. O caramujo, apesar da casca grossa, continua sendo um búzio mole...

O poeta carrega consigo todo o seu mundo e o mundo dos outros para cada mundo que visita. O poeta é, às vezes, uma ilha.

Ser poeta é não se intimidar, embora se frustrar seja algo muito comum no poeta. Ser poeta é também mais que sonhar.

Ser poeta exige ter pelo menos um objetivo de vez em quando. Criar seus poemas e vez por outra juntar tudo num livro. O poeta morto ainda é um ser vivo.

Ser poeta é encher as linhas com palavras desconhecidas que não significam coisa alguma quando escritas. Mesmo assim evocam suspiros e pensamentos os mais diversos. Ser poeta é não esperar ter sucesso...

Um poeta traduz em palavras o ritmo de sua própria vida sabendo exatamente que está entre um mar de indivíduos.

Ser poeta é ser contraditório, bem visto ou mal quisto. Um poeta incomoda tanto quanto um mosquito...

Ser poeta é ser preto e branco, mas também ser colorido. Isso pouco importa, na maioria das vezes é sempre mal entendido...

Ser um poeta é ir além, dizer ou não amém. Um poeta ama. Um poeta odeia. Um poeta sonha. Um poeta desiste. Um poeta se suicida numa linha, na outra ele revive.

Ser poeta é caminhar em nuvens de lágrimas e em fel de sorriso.

Ser poeta é estar sempre pronto, ao mesmo tempo indeciso.

Ser poeta é carregar consigo um lápis ou caneta, algum papel velho ou caderneta.

Ser poeta é ser receptáculo da inspiração.

Um poeta devaneia, escreve com o sangue da alma e também do coração...


Wagner Fonseca – 06/04/2015 
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quinta-feira, 2 de abril de 2015

S.O.S. PROFESSOR! S.O.S. PROFESSORA!



Recentemente no nosso movimento da categoria de professores da Santa Catarina me chamou muito a atenção uma bandeira inscrita: “SOS EDUCAÇÃO”. Pensei muito sobre e conclui que a bandeira está errada. O “SOS” não é pela educação, é pelo professor, é pela professora...

Me enche de raiva o coração, porque de tristeza não dá mais. Aliás, eu não sei ao certo qual sentimento ruim se apossa do meu ser quando assisto nosso secretário da educação falando na tevê. Muito menos quando ouço a própria tevê. Não, não ela, mas um comentarista que cedo nos brinda com pérolas sobre o magistério catarinense. Faltam-lhe informações, creio eu, ou no mínimo boa vontade (seria má fé?). Como, exemplo do que fora dito uns dias atrás: “um professor é contratado por 40 horas e trabalha 10”; “como pode um professor trabalhar por um período e ganhar por outro?”; “um professor trabalha mais do que aquilo pelo que foi contratado”. Estranho não? É, confunde a todos. Porém, o pior de tudo é o fato de sempre baterem na mesma tecla: “quem perde com tudo isso é o aluno, que é o elo mais frágil...” E o professor e a professora, é ainda algum elo?

É por isso que digo, quem pede “SOS” não é a educação, somos nós, professores e professoras. É, nós que trabalhamos doentes, afinal, um ACT não pode pegar atestado com mais de um dia. Nós que distribuímos o livro didático para os alunos rodopiarem no dedo, jogarem no chão, perderem ou nem sequer levar para casa. Ou levam e nunca mais tocam nele.

Há professores ruins? Ah, para com isso! Profissionais ruins há em qualquer profissão. Há alunos ruins? Claro que há, quem seria louco de dizer que todos são bons? Entretanto, há muitos e muitos bons alunos e alunas. Quando cheguei à escola ontem vários alunos e várias alunas vieram me perguntar como eu estava, se estava tudo bem (sofri um pequeno acidente semana passada). Essa atenção e carinho não tem preço e nenhum governo consegue mensurar o quanto isso é importante e precioso! Agora, um governo que diz que vai melhorar a vida do professor ACT, por exemplo, economizando 40 milhões mensais do FUNDEB, está preocupado com educação ou escola? Desde quando educação é gasto???? Acordem, educação é investimento!

Quer saber o quanto a educação está precarizada? Pergunte em qualquer sala de aula quem quer ser professor.

Pra resumir: fizemos uma greve gigante em 2011 pelo cumprimento de uma lei que o governo de Santa Catarina foi contra em 2008, em 2009 e em 2010. Não a cumpriu na sua totalidade em 2011 nem a cumpre ainda. Milhares de alunos tiveram aprovação automática e agora temos dificuldades em sala de aula. Eu não quero apenas um salário melhor, eu quero uma perspectiva de melhorias para minha carreira, para minha profissão e para a sala de aula. Esforço-me para fazer a minha parte e o que ganhamos em troca? Tirania, da mídia e do governo.


É um desabafo de um professor, já se tornou um lugar-comum este tipo de desabafo. Enquanto havê-los, a educação, o professor, a escola estarão pedindo SOS...


(texto do início do mês de março)
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sábado, 28 de março de 2015

Vamos às ruas?





Em 2013, por volta do mês de maio, discutia com alguns amigos pelo facebook o meu medo que crescia em relação à direção que nossa sociedade estava tomando. À época ainda participava ativamente de uma comunidade no extinto orkut onde debatíamos coisas análogas. Em menos de 15 dias vimos as inúmeras manifestações públicas varrerem o país e a mídia criminalizando cada manifestação genuína.

O tempo passou, veio a copa e veio a vaia...

Passou mais um tempo e vieram as eleições e o resultado e toda a agitação política. Amizades foram postas em pé de guerra em nome da política, um grave erro. O ser humano é um animal político, como já dizia Aristóteles há séculos, o que nos leva a entender que cada um de nós atua politicamente em sociedade. Isto se dá pelo fato de mantermos relações sociais e de poder constantemente. Neste exato momento escrevo este texto justamente pelo poder que tenho: viver numa sociedade que é livre para pensar. Ainda...

No ano de 2013 as manifestações passaram de violentas para democráticas em questão de instantes na mídia. Todos os arruaceiros foram culpados e o povo pôde finalmente sair às ruas pedindo tudo e quase nada ao mesmo tempo. Lembro-me de ler na revista veja que o padrão dos manifestantes era de classe média média, tendendo levemente à alta e baixa. Ao conversar com um amigo, ex-aluno, que participou de uma grande manifestação em Criciúma, o mesmo me contava a decepção que sentia em estar lá: “Meus colegas de trabalho não quiseram vir. Disseram que não era lugar para trabalhador...” Conversamos muito sobre e questionei quantos como ele havia visto por lá. Outra decepção. Assim são as coisas, assim é a sociedade. E não posso generalizar por um único evento.

O que me deixava interessado pelas manifestações da época eram justamente as falas: “Não é um movimento político!”. Como não? E como proibir a participação de partidos políticos? Estratégia interessante, afinal se dizia naquele momento: “Ei, partidos políticos, não confiamos em vocês! Não venham levantar suas bandeiras neste espaço do povo!” Passado tudo isso, nos vemos nas eleições de 2014 e muitos daqueles contrários à participação política dos partidos nos movimentos sociais do ano anterior depositaram suas esperanças e frustrações em milhares de representantes de partidos políticos nas urnas. Seria uma contradição? Podemos pensar sobre. O fato é que, passado as eleições, as amizades continuaram a serem desfeitas durante outubro e novembro do ano em questão. Comentários ácidos nas redes diziam: “faço parte dos tanto por cento de brasileiros com orgulho...”, ou algo parecido. Resumindo, segundo os eleitores de Dilma Roussef, 49% dos eleitores são elitistas e estão desgostosos com as políticas sociais implantadas na Era Lula em prol do povo mais carente. Logo, eram pessoas ruins (vou usar este termo na falta de outro). Por outro lado, vários dos 49% diziam palavras parecidas: “51% dos brasileiros é burro, analfabeto, preguiçoso e acha que o Brasil vai bem”. Devo ter errado, mas li coisas assim. Estes 49% ainda estendiam sua raiva (seria isso?) a outra porcentagem, eleitores que votaram nulo, em branco ou os que se absteram. Esses, segundo aqueles, são os mais perniciosos, aqueles que poderiam ter decidido, mas não quiseram participar, os covardes (como li em alguns ‘insultos’, na falta de palavra melhor).

Mastiguei cada coisa que li na época, cheguei a pensar em excluir pessoas da minha lista de contatos, mas não o fiz. Vivemos numa democracia liberal representativa, a qual me permite pensar como penso e falar como falo. Permite-me um pouco mais de liberdade, liberdade esta que jamais existirá num regime autocrático, num regime absolutista ou numa ditadura militar (ou outra ditadura, seja de esquerda ou de direita). Decidi não comentar e apenas viver. Porém, 2013 não morreu, ele continuou até 2015.

Hoje ainda vemos pessoas, algumas esclarecidas, e isso é importante, pois cada um de nós que possui um mínimo de discernimento sabe exatamente onde nossos atos podem nos levar. Nem de longe desejo um regime político que poderá cercear minha liberdade ou de meus compatriotas, sejam eles defensores das mesmas ideologias que movem minha vida ou não! Todavia, não posso também me calar ante as atrocidades sociais orientadas pela falta de conhecimento da história, da política ou do próprio pensar humano. É este mesmo motivo que me leva muitas vezes a refletir sobre cada erro que sai de minha boca ou de meus atos. Refletir e se desculpar quando for preciso. Refletir e discutir quando for preciso. Refletir e agir quando for preciso. Contudo, nada disso muda o fato de que nossa vida em coletividade é tão ou mais importante que qualquer mera opinião forjada no calor das emoções (estas mesmas que afetam meu pensar neste instante).


Se tenho certeza de meus atos? Claro que sim, os repenso a cada instante. Sei que a mudança começa em mim e sei também que não devo esperar por mim só apenas. Pois sou passível de erro, de falha, de dúvidas. Por isso volto meus olhos à HISTÓRIA sempre e sempre. Os erros do passado estão sempre batendo em nossas caras. Enquanto forem eles, ainda haverá esperança. Quando forem cassetetes, bem, será que teremos tempo de encontrar os erros para aprender?

15 de março de 2015
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