terça-feira, 22 de novembro de 2016

O que era verde aqui já não existe mais...



A Legião Urbana cantava esse verso do título em uma de suas músicas que costumamos utilizar em sala de aula. “Fábrica” sempre tem um ponto quando discutimos o mundo do trabalho ou a Revolução Industrial, porém gosto de seu vínculo direto com a sociologia urbana.
Quando trafego por Forquilhinha, Meleiro e Turvo, principalmente, esse verso me vem à mente ressoando em meus devaneios. O verde está indo embora? Não, estamos expulsando-o daqui!

Quando observo os inúmeros empreendimentos imobiliários na região, os famosos loteamentos, é aí que se percebe o quanto o verde tem sido expulso de nossas proximidades. Menos verde, mais animais silvestres atropelados pelas estradas, menos sombra, mais calor e por se vai a diferentes escalas de consequências. A meta é crescer, tão somente isso. Crescer mais e mais cada vez mais. Aos nossos políticos parece que somente isso importa e o desenvolvimento fica de lado.

Lembro-me de uma fala em uma rede social que me abalou certa vez. Uma personalidade da região (alguém bem conhecido) expunha seu pensamento sobre o loteamento Eldorado no bairro Santa Líbera sobre as constantes reclamações feitas pelos moradores à administração municipal em cada nova enxurrada que deixava o bairro intransitável. A referida pessoa então dizia que as pessoas deveriam primeiramente pesquisar a viabilidade do local onde adquiririam seus futuros lotes, ou seja, transferia a culpa dos problemas aos moradores que não tinham condições de comprar um lote melhor. Um pensamento ruim, diga-se de passagem, mas a quem cabem as licenças necessárias e todas as vistorias para a efetivação de um empreendimento imobiliário desse porte?

Eis aí um ponto convergente nesse devaneio. É tão comum vermos nos filmes aqueles bairros projetados com tanto verde em suas largas avenidas e me pergunto o porquê disso não acontecer por aqui. Nem precisamos refletir muito, basta pensarmos na ideia de crescimento, pois alguém com certeza lucra com tudo isso, mas e o bem estar das pessoas? Obviamente ao empresário é concedido o seu direito ao lucro, algo que aceitamos sem muito pestanejar. Todavia, cresce a cidade e crescem seus problemas juntamente, enquanto a resolução dos mesmos parece ficar para segundo plano (ou para quando as coisas vêm a tona...). 
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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O gosto por aprender



Ler. Ler ainda é pouco, pois ler pode ser apenas o passar dos olhos por sobre os signos, por sobre significados que nos são estrangeiros mesmo fazendo parte da nossa realidade.
Ouvir. Ouvir ainda é pouco, pois ouvir pode ser um eco distantemente se afastando de nós em reverberações enigmáticas de palavras nunca dantes decifradas em nosso mundo imediato.
Pensar. Pensar ainda é pouco, pois ocorre de maneira automática e sem um suspiro profundo do emergir abalo que toca a consciência, é só mais uma leitura com os olhos superficiais do querer.
Ver? Ver pouco ajuda quem não quer enxergar. Ver é pouco para quem tem sua visão colonizada pelo banal do existir. Ver é quase nada para quem não reconhece em seu campo de visão as entrelinhas do existir.

Uma ideia se perdeu em minhas palavras...
Tentarei reconstruí-la...

Aprender exige desligar-se, exige um despensar irrefletido e às vezes até irresponsável do negar a si mesmo a própria capacidade do erro, do engano e as inúmeras possibilidades de qualquer coisa atingir.
Para ler, às vezes, é necessário desconhecer-se as palavras, estranhar-se seus sentidos. Para ler é preciso muitas vezes não saber, é preciso muitas vezes não querer.
Para ouvir é necessário captar o silêncio entre os ruídos, para ouvir às vezes é preciso falar, para ouvir é preciso até silenciar.
E porque não enxergar com os olhos fechados? Ver aquilo que não se pode captar. Como enxergar o silêncio de uma sombra que jaz em meio à luz inebriante?
Assim como afastar a ordem das ideias, espalhá-las todas em nossa mente turbulenta e atribulada. Caotizar letras, números, símbolos e referências para encontrar na desordem o alívio querido para o bem pensar, a reflexão tão profunda mergulhando em si mesmo para, em muitos casos, nada encontrar.

Aprender exige esquecer-se.
Aprender exige desligar-se.
Aprender exige perder-se.
Aprender exige gostar.


É um entregar-se à ousadia da própria capacidade de errar. O gosto de aprender é também o gosto de tentar.
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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Professor, demita-se!



Às vezes eu ouço vozes e as vozes dizem assim:

“Professor, por favor, demita-se. Você doutrina nosso jovem rebanho acéfalo, você não vê? Observe as falas na internet de todos os verdadeiros entendedores, professor, por favor, demita-se.

Professor, porque você tanto reclama do seu salário? Professor, você vê advogado reclamar? Você vê médico reclamar? Você vê engenheiro reclamar? Você vê tanta gente assim reclamar? Professor, demita-se.

Aliás, professor, você trabalha quantas horas por dia? Quantas horas por semana, professor, você trabalha finais de semana? Professor, até o governo reconhece que qualquer um com notório saber pode ser professor. Professor demita-se.

Professora, porque tanto reclamas? Professora, você não trabalha feriados, não é mesmo? Professora, se é tão ruim assim, porque não trocas de profissão professora? Aliás, professora, você já foi costureira, faxineira, empacotadeira, diarista, já trabalhou em frigorífico, em olaria, em padaria, professora? Professora, se está tão ruim, pede pra sair, vai.

Professora, professor, porque tanto vocês reclamam? Vocês escolheram cuidar de nossos pequeninos para que seus pais possam trabalhar, parem de reclamar, professor, professora. Os pais não podem ir à escola saber de seus filhos, mas vocês professores escolheram isso então devem aguentar. Professor, professora, parem de reclamar!

Olhe na tevê, professor, está vendo? Está vendo que ninguém mais quer ser professor, ninguém mais quer ser professora, então pare de reclamar, afinal quem vai cuidar de nossas crianças, professora?

Professora, vai fazer mais curso, para quê? Professora, trabalhar no verão? Vai descansar professora, aproveita as férias que muitos não têm e pare de reclamar que está sem salário, professora. Porque você não guardou dinheiro durante o ano todo, professora?

E professor, professora, querem saber? Parem de ser vítimas, parem de se vitimizar. Parem com esse papo de que gostam do que fazem, de que sonham com um futuro melhor, professores. Vocês são trabalhadores assim como operários, então parem de sonhar.

Não estão contentes? Professores, demitam-se...”

As vozes se articulam, se confundem nas ideias mais confusas ainda, mas ecoam concretamente numa verborragia ardida...Esses tempos de tantas verdades são apavorantes... Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Desliza



Desliza!
Por esse véu de carne que recobre
Transpassam meus olhos para além dos sonhos
Quero te consumir!
Quero te consumir em cada mordida, em cada beijo em cada carícia!
Não é pelo sexo, tampouco pelo amor
Pura e magicamente o desejo me possuiu e quero me libidinar no teu ser
Vou lambuzar-me de paixão efêmera em cada passear de cada curva
Em teus seios estremecerei meu folego e abrir-te-ei em espasmos de puro tesão

Desliza
Desliza também nesse ser que sonha em ser contigo
Um suado único corpo de explosões infames e palavreado ardido!
Empanturra-me com tuas pernas amalgamando-se comigo
Num gozo perfeito de delírio profano
E me permita escrever em tua pele com os dentes que te devoram
Cada pedacinho desse pecado que tu ofereces por viver
Esparrama-me em tua cama, teu sofá, teu chão
Quebremos as paredes e os pés de todas as camas
Rolemos pelo asfalto gelado da meia-noite ou amassemos o capô do carro
Só não permita que esse fulgor acabe antes do sol nascer
Aos seus primeiros raios estaremos nus correndo livres
Por entre as ondas quebradiças do mar
E salgados pela vida
Temperados por mais fantasia
Despedir-nos-emos com uma carta na areia
E alguma foto de nossa leve transgressão
Aos normais, um pecado mortal
Para nós uma poesia de sexo, suor e vida.

Desliza,
Desliza teus olhos nessa carta que sonho em teu corpo
Descendo por teu pescoço e trilhando por teu quadril
Eu desejo
Jamais acabar com a tinta desse devaneio
Assim te marco em vida

Assim me marcas em vida  

09 de agosto de 2016
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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Precisamos de melhores eleitores...



Conversava eu num dia desses com um amigo sobre a qualificação de nossos candidatos a representação política. Dizia-lhe que era preciso qualificarmos nossos candidatos, quem sabe até mesmo um concurso para saber quem será considerado “apto” ao pleito, algo complicado, polêmico. Então ele oferece uma ideia, a de qualificar os eleitores! Bingo! Eis a consideração.

As perguntas continuavam em nossa conversa e para cada resposta outra dúvida. Meu amigo, uma pessoa capaz, que sabe utilizar a sua inteligência, censurado pelo próprio partido por fazer campanha e postagens anticorrupção! Como pode um partido se querer sério e pleitear o poder em uma administração municipal se censura os seus pares por serem mais livres que as marionetes a que estão acostumados? Eu não preciso dizer o nome do partido, isso pouco importa na verdade. Em cada um deles há uma demagogia insana, uma hipocrisia enraizada no habitus de seus componentes, sejam eles cargos efetivos ou de confiança dentro ou fora da administração municipal ou estadual. As nossas piscinas estão mesmo cheias de ratos...

Política e educação

Neutralidade é uma palavra cara a todas às ciências, um subterfúgio criado, pode-se dizer, para eximir o cientista das consequências de suas pesquisas, embora eu não compactue totalmente com essa forma de pensar. Na ciência pedagógica, por outro lado, a neutralidade é um fantasma que muitos acreditam existir, embora saibamos que não exista. A questão é posta acima, como formar melhores eleitores? Oras, na escola?! Seria a escola o único lugar do aprendizado? Obviamente não.

Educação, já diz o ditado, vem de casa, porém a casa também recebe educação. Quem educa a casa, o lar? Quem educa pais e mães exauridos por uma jornada de trabalho, às vezes dupla ou tripla, que chegam em suas casas prontos para tomar um banho e descansar para se preparar novamente para outro dia extenuante de trabalho? E antes que alguém comece a dizer que “na minha época a gente dava conta”, é preciso recordar que sua época já acabou, assim como a minha também. Não estou desdenhando o passado, muito pelo contrário. O que não podemos é voltar a pensar que se deve viver para trabalhar, pois o trabalho pode ser uma coisa boa, mas também é origem de muitos males de nossa saúde.

Nossas casas sofrem influência direta dos meios de comunicação de massa, da programação televisiva, radiofônica e atualmente das redes sociais, da internet tão presente em nossas rodas de bate-papo e dispositivos celulares. Estamos conectados umbilicalmente com a informação via mundo digital e a oferta é tamanha que mal conseguimos produzir um conhecimento novo com tanta informação que nos é jogada diariamente.

Com tanta informação sendo oferecida aos quatro ventos a cada instante, cabe à educação escolar um papel importante, tão importante que, num país que se quer de primeiro mundo – e eu sempre tive minhas dúvidas sobre isso – a educação escolar é sempre a que mais sofre. A escola é um elo corroído pelo tempo, pelo desgaste político de décadas e por um descaso institucionalizado em cada novo governo. 

Reza-se uma cantilena que temos escolas do século XIX com professores do século XX trabalhando com alunos do século XXI. Há, contudo, muita discordância com essa verborragia. As mentes do século XXI estão empanturradas de informações rápidas que jamais conseguirão digerir por completo e não há aula ou professor que estimule quem não quer ser estimulado, isso é fato (coisa que não gosto de dizer...). Investir em educação é um gasto quando se pensa apenas em investir na escola sendo que, como já vimos, educação não é apenas na escola que acontece (aqui outro ponto para um debate maior).

Melhores eleitores surgem de melhores cidadãos, estes surgem nas escolas, mas não apenas nelas. Contudo, da forma como pensam em tratar as escolas e professores, retornaremos à cantilena citada acima sem muito esforço. É preciso ensinar as pessoas a pensarem por conta própria, a serem livres como sujeitos na busca por um mundo melhor onde se possa vislumbrar a paz individual e coletiva, algo bem distante desses acessos de raiva e ódio baseados no medo que se postula pelas redes sociais.

Educação, política e meio ambiente

Já dizia o filósofo Rousseau, que a criança deve ser educada para ser um cidadão. Ele também alertava que antes desse cidadão a natureza nos chama a Ser, a ser mais do que um cidadão acorrentado aos ditames da política nefasta e hipócrita que permeia nosso cotidiano.

Ontem pela tarde pude, com muita tristeza, vislumbrar uma cena lastimável sobre nosso rio Mãe Luzia. Da passarela via-se logo abaixo em suas águas sacos de lixo espalhados nas pedras, misturando-se ao limo que teima em sobreviver naquela água ácida. Por mais de cem metros em seu leito via-se lixo espalhado e não consigo sequer imaginar como foram parar lá. Juntamente a esse lixo pairava uma camada de gosma, talvez gordura de origem animal que se espalhava desde uns 300 metros antes da ponte até pouco além da passarela.

O descuido com nosso meio ambiente está diretamente relacionado com nossas práticas educativas, escolares e familiares, e também com nossas práticas políticas. Quantas e quantas vezes vimos alguma administração municipal preocupada com o meio ambiente? Talvez na década de 1990, como atestam alguns jornais da época (uma pesquisa rápida no Museu Anton Eyng e você encontra). Aliás, por se falar em museu, em cultura, este é outro pilar de nossa sociedade que está ruindo, abandonado...

Qual é a preocupação de nossos postulantes aos cargos políticos quanto ao meio ambiente? Ficaremos ainda nas eternas boas intenções sem resultados práticos imediatos? Ainda permitir-se-á que se construam edifícios às margens sufocadas de nossos rios? Ainda será permitido o esgoto ser jogado diretamente em nosso rio Mãe Luzia? Ainda teremos o nosso verde sendo surrupiado sem planejamento sustentável no ambiente urbano que se urbaniza cada dia mais? Até quando Forquilhinha vai aguentar crescer sem se desenvolver?

Finalizando...

E você, candidato e candidata a vereança, sabe realmente qual será sua função se eleito ou eleita? Você, candidato e candidata a vereador ou vereadora, seria ainda candidato ou candidata se seu salário fosse disciplinado pelo piso salarial dos professores? Seria ainda candidato ou candidata se recebesse apenas um salário mínimo? Você, candidato a vereador, candidata a vereadora, conhece a ideologia de seu partido político? Você sabe o significado ideológico e prático de sua sigla? Você sabe, caro candidato, cara candidata, que para legislar é necessário muita leitura? Você lê com que frequência? Sabe que ser vereador  ou vereadora não é arranjar exames de saúde ou caminhões de terra? Sabe que legislar significa olhar para o todo, para o coletivo, para além de suas convicções pessoais?

Se você que é candidato ou candidata não sabe de coisas básicas assim, deveria saber, deve saber. Se eleito ou eleita, procure se informar mais sobre essas coisas. Respeite a confiança dos votos recebidos e trabalhe com seus eleitores para que eles sejam melhores também e aprendam a não se vender. Há uma frase do Barão de Itararé que diz mais ou menos assim: “Quem se vende recebe mais do que vale”. É para pensar mesmo.



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