domingo, 14 de outubro de 2018

O ópio dos intelectuais.


Procurando por uns arquivos no computador, eis que me deparo com esse trecho que copiei da obra de Raymond Aron, que pouco li, confesso. Entretanto, caberá muito bem na próxima avaliação de história e também vem de encontro com o momento político em que estamos envolvidos.

A passagem do Antigo Regime para a sociedade moderna se deu, na França, com uma brusquidão e brutalidade únicas. Do outro lado do Canal da Mancha, o regime constitucional foi progressivamente instaurado e as instituições representativas brotaram no parlamento, com origens que remetem aos costumes medievais. Nos séculos XVIII e XIX, a legitimidade democrática substituiu a legitimidade monárquica sem totalmente eliminar esta última, e a igualdade entre os cidadãos pouco a pouco apagou a distinção entre nobreza e plebe. As ideias que a Revolução Francesa lançou como um vendaval através da Europa - soberania do povo, exercício da autoridade dentro de regras, assembleia eleita e soberana, supressão das diferenças de status individual - se realizaram na Inglaterra, algumas até antes do que na França, sem que o povo, em uma convulsão prometeica, precisasse sacudir os seus grilhões. Lá, a “democratização” foi obra comum de partidos rivais.


Grandiosa ou horrível, a catástrofe ou epopeia revolucionária dividiu em duas a história da França. Parece ter criado duas Franças, posicionando uma contra a outra, a primeira não querendo desaparecer e a segunda sem se cansar de dar prosseguimento a uma cruzada contra o passado. Cada uma delas supostamente encarna um tipo humano quase eterno. De um lado, evoca-se a família, a autoridade, a religião; de outro, a igualdade, a razão, a liberdade. Em uma se respeita a ordem que séculos e séculos lentamente elaboraram, em outra se coloca como bandeira a capacidade do homem para reconstruir a sociedade pelos dados da ciência. A direita, partido da tradição e dos privilégios, contra a esquerda, partido do futuro e da inteligência.


ARON, Raymond. O ópio dos intelectuais. Trad: Jorge Bastos. São Paulo: Três Estrelas, 2016 Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Uma história que não valorizamos




Quando criança costumava assistir desenhos animados como qualquer um e muito aprendia sobre a história dos Estados Unidos ou até mesmo mundial. Da mesma forma hoje inúmeros jovens aprendem sobre cultura oriental com seus animes japoneses. Mas e a nossa história, do nosso município, do nosso Estado e do nosso país? Onde está essa história?

Pernalonga, Popeye, Pica-Pau exibiam vários episódios onde veneravam a luta contra os nazistas, a epopeia dos pais fundadores da pátria ou a luta pela independência da nação yankee. E nós, cá colonizados pelos portugueses, continuamos nossa colonização cultural pela esmagadora “aventura” do Tio Sam no mundo moderno dominando a tudo e todos. Bem, isso não acontece apenas conosco. O filme “Quem quer ser milionário” ilustra bem esse cenário de colonização midiática: um jovem que sabia mais sobre o mundo euro-yankee do que seu próprio país, a Índia, de uma história e cultura tão rica quanto longeva.

Um amigo esteve na Alemanha em 2016 por período de quarenta e cinco dias e no retorno me contou, admirado, como a cultura de lá é extremamente influenciada pelos EUA! Lojas, shoppings, filmes e músicas, em tudo estava estampado o american way of life ditando regras a tudo e todos. Cabe lembrar que ele esteve a trabalho e pouco tempo teve para curtir a cultura germânica local da cidade onde estava, próxima a Hamburgo.

E nós, bravos brasileiros, como estamos? Quem de nós se importa com nossa história? Confesso: na escola eu odiava história do Brasil. Não, não odiava, só achava chata pra caramba, mas curtia muito a história mundial. Eu via no mundo o que me faltava aqui. Mal sabia eu que, na verdade, pouco nos falta aqui, ou melhor, nos falta é estudar.

Já que falei dos desenhos animados no início, por que não lembrar do cinema? Hollywood transforma qualquer pequena história em magnífico blockbuster e talvez seja justamente isso que falte para nós: uma grande produção “ficciosa” para contar aquilo que não achamos atraente em nossa própria epopeia, uma forma de mostrar o que está nos livros de uma maneira mais, digamos, “legal”...

Muito comum vermos as pessoas reclamando de nosso cinema e só isso já caberia outra discussão. Entretanto, quero trazer aqui um exemplo que se encaixa perfeitamente bem para esse momento. Trata-se do filme “Narradores de Javé” (meu filme preferido do cinema nacional). A película narra de forma engraçada a desgraça de um povoado que será apagado do mapa pela construção de uma barragem. O deus progresso estampado em nossa bandeira não liga para meros mortais, mesmo que eles tentem escrever a “história grande” do seu humilde povoado. Tal história nada mais é que o registro histórico de sua existência que, pelos meandros burocráticos da nossa sociedade, tenderá a ficar empoeirado n’algum pequeno museu esquecido de alguma pequena cidade onde pessoas pequenas (?) sequer lembrarão de sua existência. Se você ainda não assistiu esse filme, lhe garanto umas boas risadas e também uma bela reflexão sobre nossa história.

Somos ainda hoje esse povo que é solapado pelo avanço do progresso, principalmente daquele que vem de fora e entra pelos poros de nossa pele, invade nossa imaginação e dita os modos que ela deve operar. Se vê isso nos anglicanismos tão presentes nos nomes de nossos filhos, que ficam tão belos em outra língua ou com tantos “pês agás”, “eles” ou “enes” e “emes” duplicados.

Um povo que não valoriza sua história pouco se importa em entender que cultura é a sua, se é que percebe essa mesma cultura. Lugar-comum do vitimismo barato e complexo de vira-latas que tanto rotulamos em nós mesmos. Um dia, quem sabe, estaremos lá, estampados atrás de uma vitrina em algum museu bonito de verdade, museu histórico de verdade, entre ossos de dinossauros e peças de arte de verdade. Lá, no meio de tanta verdade, tremulará uma bandeira de um país habitado por bárbaros que foi apagado da história pelo rolo compressor do deus-progresso.

Queria ser mais otimista, mas a dificuldade do momento não me deixa seguir adiante. Melhor enrolar-me numa bandeira verde e amarela de 1,99 e sonhar com meu futuro ou passado de algum berço esplêndido.

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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

O bom candidato




Saber que nada se sabe é o primeiro passo para o autoconhecimento, diria o filósofo. Saber as próprias limitações já é um passo para se conhecer. Saber-se indivíduo, isolado, limitado e necessitado da coletividade, é outro passo para se conhecer o básico da vida em sociedade, da vida política.

Em tempos de eleições surgem as propostas mas mirabolantes, as verdades mais perfeitas (e as teorias mais “convincentes”), além, claro, dos salvadores mais aptos a resgatar nosso velho e combalido gigante que teima em ficar adormecido.

Profetas, pastores, ovelhas e os próprios lobos misturam-se numa balbúrdia sem fim. O riso e o sarcasmo abrilhantam e desfazem amizades, enquanto no tabuleiro os verdadeiros donos do jogo apenas trocam as cores de velhas peças.

Iluminados e ceifadores do “inimigo” apontam seus dedos em riste, alteram o tom de suas vozes e estufam o peito orgulhosos:

_Estou em missão divina! _ finalmente vocifera um candidato laureando para si ser o avatar da moral, da salvação redentora e do destino mais próspero da grande nação.  

Velhas promessas, velha história e personagens tão comuns e banais quanto as próprias soluções simplistas que tanto propõem. Do outro lado a ânsia por mudanças apenas troca o santo do altar. Contudo, a turba, agora achando-se superior à ignorância e à inocência de tempos pretéritos, não aceita a crítica generalizada. Afinal, não se deve falar mal de quem veio em missão divina trazer luz nova ao povo, mesmo que de novo nada tenha, evidentemente...

Me vem à mente aquele antigo conselho: “Cuidado com os falsos profetas, verdadeiros lobos em pele de cordeiro”. Vale a atualização para nossos tempos, para nossos políticos, mas creio que nem valha a pena o exercício criativo. Afinal, quem já escolheu seu salvador, não buscará fenecer por outras mãos.

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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A morte alheia te incomoda?




Se a morte, seja de quem for, te incomoda, não compactue com as ideias de quem apoia a tortura, de quem apoia violência, de quem acredita na morte como vitória.

Se a morte, seja de quem for, seja como for, te incomoda, não apoie a tortura, não apoie a violência.

Se a morte, seja de quem for, seja como for, seja por que motivo for, te incomoda, não apoie o racismo, não espalhe racismo, não apoie a violência nem espalhe seu ódio gratuito pelas redes sociais.

Ao difundir seu ódio você está comprovadamente dizendo a todos o quanto não precisa de ninguém.

Se você não precisa de ninguém, por que tanto se preocupa com a morte alheia?

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quarta-feira, 27 de junho de 2018

Silenciar

Às vezes se está vazio, tão completamente vazio que o próprio respirar nos pesa, nos estressa e até incomoda.

Às vezes se está tão imensamente vazio que só então percebe-se o quão carregados de coisas estamos. Quando não nos damos conta que são todas essas coisas que nos esvaziam. Na maioria das vezes só precisamos parar e silenciar.

Diz-me um amigo mui próximo que o silêncio também é utopia. Nesse caso, como nos recordava o saudoso Galeano, utopia é o que nos leva a caminhar rumo ao horizonte, esse futuro que “nunca se alcança”, mas nos hipnotiza, nos enseja a sempre seguir a frente.
Silenciar, muitas vezes é a única coisa de que realmente necessitamos. Estamos tão egocentrados em nossos mundinhos cotidianos que simplesmente esquecemos essa virtude de nada querer. Aliás, demasiadamente e a cada dia que passa avolumamos infinitamente essa necessidade de desejar a tudo e a todos de um jeito que já não tomamos freio em nossas vidas. De nada adianta fingirmos essa preocupação com o meio e o próximo.

Ou buscamos o silêncio, esse instante vívido e intrínseco ao bem viver, ou estaremos sempre no percalço de algo para nos consumir e às nossas angústias, essas, frutos justamente de um nunca parar.

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