sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Conto de momento



Conheci uma poesia no verão,
Largada numa calçada qualquer
De uma cidade qualquer
De um dia qualquer
De um sorriso qualquer

Estiquei o braço e ela fugiu de mim
Eu sorri, bobo assim
Tão cansado estava que parei
Bem ali, no meio daquele lugar
De um lugar qualquer

A poesia não sabia de mim
Eu não quis saber dela, e dormi
Como ébrio enlameado e roncando alto
Acordei saraivado pela força da chuva
De uma tarde qualquer

Volvi meu olhar para algum canto
E o tempo fechado parecia romper o espaço
Entre trovões e relâmpagos chutei poças
Feito criança naquela lambança de dia

De um dia qualquer... 
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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Consumação: o mundo como palco



É verão, tempo de praia, sol e alegria. Na verdade tanto faz que estação seja se a propaganda for boa. O que importa é anunciar tudo que puder ser consumido no menor tempo possível: produtos, pessoas, lugares. Nem o tempo escasso escapa de ser consumido tal qual as relações entre pessoas, seres e entre as pessoas e os lugares onde se encontram momentaneamente ou não. O tempo escorre com pessoas escorrendo entre si, dentro de si, para fora de si, para lugar algum ou todos os lugares ao mesmo tempo.

Não há mais fotografias, diz o especialista, saudosista do tempo em que valia a pena registrar algo que pudesse ser realmente compartilhado, vivido e revivido em consonância com algum sentimento especial. Hoje há um clic rápido e rasteiro, superficialmente concretizado em alguma pose qualquer pré-definida para aquele insípido ‘estar ali’. Tão logo postada em alguma rede social tal imagem instantaneamente será consumida em alguns ou milhares de ‘likes’ para então cair no esquecimento, tanto quanto o momento ‘vivenciado’ ...

Não há mais criatividade, diz o outro especialista, apenas um desenrolar de um ou outro roteiro qualquer, seja no filme que arrecadará milhões seja no livro que logo será também um blockbuster. Ao fim tudo consumido rápida e ferozmente para entrar na lista subitamente intelectualizada dos novos especialistas em tudo...

É tempo de compartilhar as dores e alegrias mesmo que não saibamos ao certo se e qual delas aumentará ou diminuirá conforme nossa exposição. Antes dizíamos que precisávamos Ser mais do que Ter, porém a regra que vivenciamos parece ser outra: estar é mais importante que dois verbos anteriores. Estar onde estão os outros, estar e ser visto, estar e provar que foi visto.

Inveja-me um amigo que desvencilhou-se de sua caixinha mágica de Pandora com todos seus galanteios e vem tentando caminhar pelo mundo sendo apenas ele sem precisar ser o que querem que ele seja. Ser é estar sendo e muito raro, quase impossível ser sem os outros, mas é preciso ser quem se é livre de amarras e correias que parecem saltar de nossas caixinhas luminosas e suas mágicas presas.


Meu amigo voltou ao celular da ‘cobrinha’. Parece que naquele mundo menos completo aos olhos de milhares e mais vazio de tudo é onde ele encontrou exatamente aquilo que o ser humano mais precisa no momento: paz e quietude.
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terça-feira, 22 de novembro de 2016

O que era verde aqui já não existe mais...



A Legião Urbana cantava esse verso do título em uma de suas músicas que costumamos utilizar em sala de aula. “Fábrica” sempre tem um ponto quando discutimos o mundo do trabalho ou a Revolução Industrial, porém gosto de seu vínculo direto com a sociologia urbana.
Quando trafego por Forquilhinha, Meleiro e Turvo, principalmente, esse verso me vem à mente ressoando em meus devaneios. O verde está indo embora? Não, estamos expulsando-o daqui!

Quando observo os inúmeros empreendimentos imobiliários na região, os famosos loteamentos, é aí que se percebe o quanto o verde tem sido expulso de nossas proximidades. Menos verde, mais animais silvestres atropelados pelas estradas, menos sombra, mais calor e por se vai a diferentes escalas de consequências. A meta é crescer, tão somente isso. Crescer mais e mais cada vez mais. Aos nossos políticos parece que somente isso importa e o desenvolvimento fica de lado.

Lembro-me de uma fala em uma rede social que me abalou certa vez. Uma personalidade da região (alguém bem conhecido) expunha seu pensamento sobre o loteamento Eldorado no bairro Santa Líbera sobre as constantes reclamações feitas pelos moradores à administração municipal em cada nova enxurrada que deixava o bairro intransitável. A referida pessoa então dizia que as pessoas deveriam primeiramente pesquisar a viabilidade do local onde adquiririam seus futuros lotes, ou seja, transferia a culpa dos problemas aos moradores que não tinham condições de comprar um lote melhor. Um pensamento ruim, diga-se de passagem, mas a quem cabem as licenças necessárias e todas as vistorias para a efetivação de um empreendimento imobiliário desse porte?

Eis aí um ponto convergente nesse devaneio. É tão comum vermos nos filmes aqueles bairros projetados com tanto verde em suas largas avenidas e me pergunto o porquê disso não acontecer por aqui. Nem precisamos refletir muito, basta pensarmos na ideia de crescimento, pois alguém com certeza lucra com tudo isso, mas e o bem estar das pessoas? Obviamente ao empresário é concedido o seu direito ao lucro, algo que aceitamos sem muito pestanejar. Todavia, cresce a cidade e crescem seus problemas juntamente, enquanto a resolução dos mesmos parece ficar para segundo plano (ou para quando as coisas vêm a tona...). 
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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O gosto por aprender



Ler. Ler ainda é pouco, pois ler pode ser apenas o passar dos olhos por sobre os signos, por sobre significados que nos são estrangeiros mesmo fazendo parte da nossa realidade.
Ouvir. Ouvir ainda é pouco, pois ouvir pode ser um eco distantemente se afastando de nós em reverberações enigmáticas de palavras nunca dantes decifradas em nosso mundo imediato.
Pensar. Pensar ainda é pouco, pois ocorre de maneira automática e sem um suspiro profundo do emergir abalo que toca a consciência, é só mais uma leitura com os olhos superficiais do querer.
Ver? Ver pouco ajuda quem não quer enxergar. Ver é pouco para quem tem sua visão colonizada pelo banal do existir. Ver é quase nada para quem não reconhece em seu campo de visão as entrelinhas do existir.

Uma ideia se perdeu em minhas palavras...
Tentarei reconstruí-la...

Aprender exige desligar-se, exige um despensar irrefletido e às vezes até irresponsável do negar a si mesmo a própria capacidade do erro, do engano e as inúmeras possibilidades de qualquer coisa atingir.
Para ler, às vezes, é necessário desconhecer-se as palavras, estranhar-se seus sentidos. Para ler é preciso muitas vezes não saber, é preciso muitas vezes não querer.
Para ouvir é necessário captar o silêncio entre os ruídos, para ouvir às vezes é preciso falar, para ouvir é preciso até silenciar.
E porque não enxergar com os olhos fechados? Ver aquilo que não se pode captar. Como enxergar o silêncio de uma sombra que jaz em meio à luz inebriante?
Assim como afastar a ordem das ideias, espalhá-las todas em nossa mente turbulenta e atribulada. Caotizar letras, números, símbolos e referências para encontrar na desordem o alívio querido para o bem pensar, a reflexão tão profunda mergulhando em si mesmo para, em muitos casos, nada encontrar.

Aprender exige esquecer-se.
Aprender exige desligar-se.
Aprender exige perder-se.
Aprender exige gostar.


É um entregar-se à ousadia da própria capacidade de errar. O gosto de aprender é também o gosto de tentar.
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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Professor, demita-se!



Às vezes eu ouço vozes e as vozes dizem assim:

“Professor, por favor, demita-se. Você doutrina nosso jovem rebanho acéfalo, você não vê? Observe as falas na internet de todos os verdadeiros entendedores, professor, por favor, demita-se.

Professor, porque você tanto reclama do seu salário? Professor, você vê advogado reclamar? Você vê médico reclamar? Você vê engenheiro reclamar? Você vê tanta gente assim reclamar? Professor, demita-se.

Aliás, professor, você trabalha quantas horas por dia? Quantas horas por semana, professor, você trabalha finais de semana? Professor, até o governo reconhece que qualquer um com notório saber pode ser professor. Professor demita-se.

Professora, porque tanto reclamas? Professora, você não trabalha feriados, não é mesmo? Professora, se é tão ruim assim, porque não trocas de profissão professora? Aliás, professora, você já foi costureira, faxineira, empacotadeira, diarista, já trabalhou em frigorífico, em olaria, em padaria, professora? Professora, se está tão ruim, pede pra sair, vai.

Professora, professor, porque tanto vocês reclamam? Vocês escolheram cuidar de nossos pequeninos para que seus pais possam trabalhar, parem de reclamar, professor, professora. Os pais não podem ir à escola saber de seus filhos, mas vocês professores escolheram isso então devem aguentar. Professor, professora, parem de reclamar!

Olhe na tevê, professor, está vendo? Está vendo que ninguém mais quer ser professor, ninguém mais quer ser professora, então pare de reclamar, afinal quem vai cuidar de nossas crianças, professora?

Professora, vai fazer mais curso, para quê? Professora, trabalhar no verão? Vai descansar professora, aproveita as férias que muitos não têm e pare de reclamar que está sem salário, professora. Porque você não guardou dinheiro durante o ano todo, professora?

E professor, professora, querem saber? Parem de ser vítimas, parem de se vitimizar. Parem com esse papo de que gostam do que fazem, de que sonham com um futuro melhor, professores. Vocês são trabalhadores assim como operários, então parem de sonhar.

Não estão contentes? Professores, demitam-se...”

As vozes se articulam, se confundem nas ideias mais confusas ainda, mas ecoam concretamente numa verborragia ardida...Esses tempos de tantas verdades são apavorantes... Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...