segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Os dilemas da educação a distância... agora pra valer...

 


 


Quando falo em educação gosto de separar um pouco as coisas: a educação está em todo lugar, não só na escola. Lá nas salas de aulas temos a educação escolar, uma parte do que consideramos educação. Nem vou me estender nisso, embora minha preocupação seja justamente sobre a educação escolar.

Recebi hoje pelas redes sociais um “print” de uma mensagem cuja autoria já deve ter se perdido nos meandros da web. A postagem em questão toca num assunto sério: a imensa quantidade de atividades que alunas e alunos têm recebido semanalmente em casa. Os professores devem estar loucos enviando tantas atividades assim! É só fazer a conta: 12 atividades por semana, quatro semanas e teremos 48 atividades em um mês! Que me desculpem os entusiastas, mas nem em nossa “normalidade” escolar isso ocorre. Então nossos alunos e nossas alunas vêm até nós reclamar sobre tudo isso:

_ Professor, terminei as atividades ontem e agora já tem tudo de novo!

Está difícil, muito além do que nós professores trabalhamos em sala de aula. Está difícil para nós e para nossos alunos. Um aluno chegou a me implorar para fazermos uma aula “clandestina” numa praça, alguns alunos apenas, de máscaras e distanciamento. Confesso que cogitei a cena, mas o peso da cobrança sobre mim é maior. O pior de tudo é que mal me recordo do aluno, pois tivemos poucas aulas no início do ano! Como podemos “ensinar” algo assim? Me cortou o coração ouvir dele as dificuldades em aprender, querer mas não conseguir sozinho...

Em nossas conversas nas redes sociais trocamos nossas angústias e dificuldades. O meu celular quebrou, mas tenho computador em casa. Tenho alunos de 16 anos de idade que utilizam os celulares dos pais. Também tenho alunos com celulares de dois ou três mil reais mas que não conseguem pagar um plano de internet. Prioridades: ostentar vale mais que poder utilizar o aparelho em sua plenitude. Na verdade, se formos elencar os problemas, o rol iria longe e, na boa, quem sou eu para julgar cada um? O problema dos nossos problemas é que são nossos, não dos outros, e mesmo que fossem, seria muita maldade não se preocupar também.

Nós professores somos obrigados a dar conta de nossas atividades. Inventar coisas sabe lá Deus de onde sobre conteúdos ainda não discutidos não é fácil para ninguém. Apontar culpados também não soluciona nossos problemas, mas o fato é que estamos adoecendo, professores, pais, mães e alunos e alunas. Apaguei mais de 100 mensagens no whatsapp na semana passada, arquivei-as antes de apagá-las. Dois dias depois meu celular morreu e agora já tenho dificuldades em contatar os educandos.

A palavra mais séria nesse momento é, sem sombra de dúvida, resiliência. Precisamos, cada um de nós, nesse momento ter força, coragem, fé e esperança, o que for preciso para aguentar essa tempestade. Do contrário todos afundaremos juntos. Não está fácil vencer o peso da imensa burocracia que se abateu sobre nossa profissão, contudo, ainda a temos. Nem professores, nem alunos, nem famílias estão mais suportando tamanha pressão. Entretanto, é preciso seguirmos firmes, vencer nossas angústias e desesperos e tomar muito cuidado com toda ansiedade que vier. E, quando tudo isso passar – porque vai passar – que possamos repensar nossos papéis, escola e famílias, pais, mães, filhos e professores.

 


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Cidadão? Que cidadão, cara pálida?!

 


 

Aprendemos com a história que o conceito de cidadania desenvolveu-se na Atenas antiga há vinte e cinco séculos, aproximadamente. Naquela época, embora inovador, o ideal de cidadão abarcava um percentual pequeno da população. Basicamente homens adultos, livres e atenienses. Escravos, pobres em geral, estrangeiros e mulheres sequer tinham espaço para decidir os rumos da cidade. Ser cidadão é isso, participar das decisões que indicam os caminhos políticos da vida em cidade. Aliás, a própria palavra política traz consigo a noção da vida na cidade.

Bem, hoje o conceito de cidadania é muito mais abrangente, graças às sociedades que lutaram durante tanto tempo para que pudéssemos hoje ter acesso a uma vida mais democrática. Ser cidadão é mais que uma garantia por lei, é a garantia de que, seja quem for, nossos direitos estarão garantidos. Em uma fila de banco você está sujeito a uma senha e a senha é só um número, independente do seu saldo bancário. Na fila do supermercado isso não muda e muito menos muda na hora de você votar.

Para ser um médico te exigem estudo e diploma. Para ser advogado, engenheiro ou professor a ideia é a mesma: estudo e certificação. Porém, nada disso faz de você alguém melhor ou pior que outra pessoa. Além disso, a lei é válida independente do seu diploma, ou pelo menos deveria ser, visto que no Brasil ainda sobrevive uma ideia antidemocrática de “foro privilegiado”. Claro, alguns podem defender que isso está racionalmente escrito nas leis, vá lá.  Todavia, no Brasil vigora algo maior e mais antigo que isso, uma mácula na formação nacional encravada na nossa essência como um espinho que se recusa a sair do nosso corpo.

Você sabe com quem está falando?” é uma daquelas falas em que a pessoa se apodera totalmente de uma superioridade que jamais se justifica. Ninguém deveria estar acima das leis, muito menos utilizar seus “títulos” para alguma situação justificar uma suposta posição acima de alguém. Nos tempos de Brasil colônia ou Brasil império um título fazia “sentido” - naquela época. Mas, em pleno século XXI alguém ainda achar que um “título” faz uma pessoa melhor que outra é mais que retrocesso. Isso só demonstra o quanto ainda temos que crescer enquanto nação. Infelizmente, nada nos faz crer que veremos cada vez menos casos como o veiculado pelas redes sociais nessa semana. O “cidadão não, engenheiro formado” pode até virar meme, como tudo o que fazemos por aqui. Mesmo assim desvela um sentimento muito básico de um povo mesquinho: o de sempre querer estar acima dos outros.

Casos parecidos assim, como quando o cidadão defende a democracia de outros países mas deseja para o nosso uma ditadura. Há outros exemplos semelhantes – e preocupantes – nesse sentido. Assuntos para outro momento. Por hora fico nos devaneios do quanto valem os títulos que carrego e a responsabilidade emoldurada em cada um. Ser cidadão e humano ainda é o maior dos diplomas, cuja certificação precisa ser constante em nossa caminhada...                  

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Nos falta poesia nessa pandemia...

 


“A educação falhou”, diz um empresário do ramo de escolas de idiomas. Sim, ele está correto, a educação falhou: família, igreja, Estado e a escola, ou por acaso vocês acham que educação é só escola? falhamos enquanto sociedade, diariamente.

Falhamos quando elegemos nossos representantes políticos que escrevem as leis que justamente garantem que sejam eleitos para garantir que suas leis sejam escritas e garantidas para justamente garantir a perpetuação desse ciclo vicioso de corruptibilidade da vida social e política, da infância à falência vital.

Falhamos quando a vítima estuprada é culpada pelo estupro, falhamos quando aceitamos que essa mesma vítima seja comparada com uma “cachorra no cio” e falhamos mais ainda porque aplaudimos quem diz isso, porque muitos de nós concordamos. E continuamos indo até o mestre questionar-lhe o que fazer com a mulher infiel. Ele, agachado, escreve no chão. Será que hoje nos mandaria olhar primeiro nossos erros antes de julgar aos outros? Ou também agiria como os exemplos que temos visto? “Cidadão, não!”, ou, “Vocês têm inveja da cor dos meus olhos?”, ou quem sabe, “Aqui é o Messias, olhe com quem você está falando!”.

Não é o Brasil que está revirado, porque esse país ainda nem conseguiu se constituir seriamente enquanto povo ou nação, pelo menos não de forma madura, não é mesmo?

Nós olhamos as redes sociais por tempo suficiente para nos enojar porque as pessoas perderam o medo de expor suas fétidas camadas internas. Até bem pouco tempo atrás bastava manter as aparências e ir à igreja aos domingos, pagar seus impostos piamente e dizer aqui ou ali um pouco de seus preconceitos, num círculo limitado de intimidade. Geralmente entre aqueles que compactuassem os mesmos valores. Entretanto, gradualmente as pessoas que sofriam com os preconceitos começaram a se impor e exigir espaço, visibilidade e pararam de ter medo por ser quem são e como são, pois, antes de tudo, somos humanos, antes de tudo, somos seres vivos e, numa visão religiosa cristã, aos olhos do Pai, somos todos iguais. É, nesse quesito as coisas começam a se complicar...

Me pego olhando os botões da tela caixinha mágica e me pergunto se realmente vale a pena compartilhar tamanha mesquinharia alheia. Penso nos meus erros, nos meus pecados e preconceitos internos, reflito sobre meus julgamentos. Não torço eu também pelo fim disso tudo com a eliminação da espécie humana? Seria considerado um pessoa ruim ou insana por pensar isso? Ou tais pensamentos só surgem por visibilizar tanta maldade difundida pelas redes sociais e pela vida real mesmo? E não sou eu também um vetor dessa difusão de maldades e mesquinharias?

Tenso.

Suspiro, reflito.

A educação não falhou, tampouco a família, a igreja ou o Estado, muito menos a espécie humana falhou. Falhamos, isso sim, diariamente, e por esse motivo precisamos nos reinventar, rever nossos preconceitos mais arraigados, rever nossos vieses de violência com os quais muitos de nós acreditamos poder resolver tudo. Porque, se continuarmos a combater fogo contra fogo não restará nada além de cinzas daquilo tudo que um dia poderíamos ser.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Reflexos e reflexões de um cansaço que nos adoece


Estamos cansados em todos os sentidos. Cansados, fracos e adoecidos. Para alguns mais alarmantes é tudo um castigo divino, fim dos tempos, mas para estes é sempre assim. Qualquer coisa que acontece ou é o destino agindo ou outra força sobrenatural. Afinal, é sempre mais fácil colocar a culpa em algo que não se consegue compreender nem explicar, posto que compreensão e explicação exigem muito além da vontade e capacidade a que estamos acostumados. Invoque-se Deus ou o Diabo e tudo estará resolvido. Pelo menos no campo das culpas.

De qualquer forma, a pandemia nos cansou, o valente século XXI! Tal qual seu antecessor vivendo uma Belle Époque, crendo nos avanços científicos e tecnológicos, no avanço das ideias e do conhecimento que erigia a “casta” europeia sobre o restante do mundo e viu fenecer seus ideais em sangrentas guerras mundiais e nos totalitarismos. O polo se inverteu e a incomensurável força do progresso e conhecimento humanos foram novamente abalados, não pela nossa forte convicção em nossa sociedade, mas ao contrário: vimos alguns odiosos discursos contrários à ciência, por exemplo, terem que voltar essa convicção já um tanto abalada para travar uma guerra diferente. O inimigo agora é praticamente invisível, mata gradualmente o ser humano e “fere de faca” o sistema financeiro.

Se no século XX a crença no progresso, uma das características do pensamento moderno, não foi suficiente para livrar a sociedade humana da barbárie, criando a devastação bélica de duas guerras mundiais, no início desse século e, principalmente agora, vemos um embate dantesco entre a ciência e as superstições. Há quem diga que o discurso iluminista falhou e não se obtém mais sucesso a tentar-se iluminar as mentes humanas. A grande rede, a internet, tornou-se nosso “grande irmão orwelliano”, que a tudo vigia e tudo sabe de nós. E nós nos entregamos de graça, todo nosso conhecimento e, o mais importante de tudo: entregamos de graça à “Grande Rede” toda nossa santa e sagrada ignorância! No ápice de achar que sabemos algo, acabamos apenas nos passando pelo “tiozão do zap” que compartilha coisas porque sabe apertar um botão de compartilhar...

No fundo, e na superfície também, trata-se de controle, de controle de corpos e mentes, de educar sensações e sentimentos, de educar o olhar e a dor. Parece que há muita coisa, muita informação misturada nessas poucas linhas, como poderia ser diferente? Esse é o mundo em que vivemos, rodeados de uma miríade constante e crescente de informações que nos adoece tanto quanto outros minúsculos seres nocivos aos nossos corpos. Esses podem ser combatidos com remédios, mas como combater as ideias que nos rodeiam? Ou melhor, como equilibrar todo o poderio, toda a sedução que elas impõem sobre nós?

Até pouco tempo, o filósofo Foucault dizia-nos que vivíamos sob uma sociedade do controle, e ainda é assim em muitos aspectos. As regras, as leis e os decretos – lockdown – se tornaram palavras comuns nesses meses pandêmicos. De outro lado, Byung-Chul Han, filósofo coreano que vive na Alemanha, aponta que aquela sociedade do controle já tem seus dias contados ou já passou. Vivemos sob outra sociedade, uma sociedade do desempenho, do “eu posso”. Olhe ao seu redor e, pessoas que viveram a virada do século, lembrem-se como os discursos foram positivados. Ganhamos o poder de dominar nossos rumos! É o que dizem as palestras e os milhares de discursos, sejam de auto ajuda ou auto motivação. Então, uma pandemia nos tira todo esse poder de fazer as coisas. Como poderíamos não adoecer?

Uns “presos” em suas casas, como medo de um inimigo que mata sem ser visto. Uns “presos” na sua santa ignorância apenas esperando a próxima “fake news” que combina exatamente com a sua ideologia para poder compartilhar com um sorriso quase insano de quem acha que sabe algo. Outros “presos” na negatividade de não poder fazer as coisas que fazia antes da pandemia. No primeiro lapso, quebra-se a regra e bora curtir a natureza – antes só curtia o escritório.

Adoecemos com a doença física, com a cadeia mental, adoecemos por não poder fazer o que fomos educados desde cedo que podíamos. Muitos adoecem por não poderem sequer ter esses direitos. Alguma coisa temos que aprender até o fim dessa crise. O que, ainda precisamos descobrir.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Nunca deixe de lembrar - Resenha






Nunca deixe de lembrar (Never look away), filme alemão do diretor Florian Henckel von Donnersmarck de 2018 nos traz uma obra de arte sensível e singela sem parecer em momento algum enfadonha. A sensibilidade do filme explode suavemente em cada camada de luz e cor que perpassa a película, saboreando-nos ainda mais com uma edição de som primorosa. As imagens dançam na tela com uma profundidade densa sem ser pesada.

O protagonista, Kurt Barnert, vivido pelo ator Tom Schilling é quem nos move por essa jornada cinematográfica, iniciando seu caminho ainda criança na Alemanha em princípios do totalitarismo nazista. Aliás, convém lembrar que o protagonista desenvolve-se por três períodos históricos que são amarrados muito firmemente ao mesmo tempo em que impregnam o personagem com as dúvidas de quem cresceu em mundos distintos.


Primeiramente, na infância de Kurt o vemos na cena inicial do filme visitando uma exposição de arte. Ao vê-lo guiado por sua tia imaginamos tratar-se dela quando na verdade ela é quem dá a base ao pequeno Kurt nesse mundo da arte. Mundo esse encravado agora no nazismo alemão que julgava depravada a arte que não servia aos ideais da grande pátria ariana. O primeiro contato de Kurt com esse mundo da arte é um embate entre a inocência da criança e a inocência/ingenuidade/loucura/liberdade da sua jovem tia. Elizabeth, a tia de Kurt, representa, de certa forma, esse misto de sentimentos que vão da loucura e inocência aos desejos ingênuos de liberdade. Que não nos percamos aqui: a tia pode ser ingênua, mas jamais louca numa acepção completa da palavra e protagoniza uma cena das mais simples e belas ao pedir uma sinfonia de buzinas aos motoristas de ônibus. Seu destino, infelizmente, torna-se o destino daquelas pessoas cujo caminho tratou de ser interpolado por um regime político dissonante de seus sonhos de vida. É nesse momento que a guerra entra em cena, de maneira rápida e concisa, o que é bom, pois o filme não tem a obrigação de tratar das desgraças beligerantes. Ponto favorável, nesse sentido, ao mostrar o desenvolvimento de pessoas comuns que foram infringidas pelo peso esmagador do nazismo e de um conflito bélico avassalador. Sem desmerecer o sofrimento de outros povos, o filme traz esse ponto de vista que poucas vezes vemos no cinema e fica expressa em uma fala do pai de Kurt ao procurar emprego no pós-guerra: “Oras, três quartos dos professores eram do partido!” E por esse motivo ele não consegue emprego, situação que já serve de gancho para pensar-se como a hegemonia nazista introjetou-se no seio de cada instituição da sociedade alemã, nesse caso, a escolar.

Passado o horror da guerra, temos então um novo período de reconstrução na vida do nosso personagem Kurt, já adolescente tendo que enfrentar todos os problemas de um novo regime: sua Alemanha agora vive sob a égide de outro sistema, o socialismo soviético, no qual Kurt vai se estabelecer como artista do povo. O “militante das tintas e pinceis” não milita e nem demonstra alguma forte convicção política, estética ou mesmo moral pelo regime. O que percebe-se é uma pessoa comum, outras pessoas comuns atravessando os difíceis momentos de uma época, de um totalitarismo a outro e tendo que sobreviver com muitas ou poucas expectativas a realidade ditada, hora por um regime, hora por outro. Entretanto, não se trata de pura apatia, conveniência ou total desconhecimento da realidade, mas tão somente a sobrevivência cotidiana.

Concomitante à vivência de Kurt desenvolve-se a história do médico Carl Seeband (Sebastian Koch), o qual exige ser tratado como “professor” a todo instante. O seu orgulho em fazer parte do regime nazista é auto evidenciado em sua própria existência, da fala à postura. É ele quem define o rumos da história de Elizabeth, a tia de Kurt, representando fielmente a crença nazista da eliminação dos fracos e doentes, sejam físicos ou mentais. O talento médico de Seeband é utilizado dentro do pensamento totalitário de elevar o nível da raça pura subtraindo da sociedade aqueles e aquelas cujos traços genéticos não condizem com a perfeição. No entanto, seu orgulho em ser o melhor médico o leva do nazismo ao socialismo em uma transição quase natural para aqueles que perseguem o poder e fazem de tudo para manter-se no topo acreditando-se vigorosamente que é o melhor dentre os melhores.
Elizabeth, a tia de Kurt, interpretada pela atriz Saskia Rosendahl
Herr Professor emoldura outro lado da história, um quase contraponto direto ao personagem de Kurt que, agora, estudando na faculdade de artes, vê novamente outra pessoa ditando-lhe o que vem a ser a arte. Se, no início do filme a arte é desprezada ou engrandecida conforme o ideal nazista, a partir da segunda parte do filme ela é estabelecida segundo os ditames do realismo soviético, pois o artista deve ser aquele que tinge os sentimentos da pátria e do povo com os traços fortes de uma realidade que nada tem de abstrata. Vemos então o professor de Kurt fazer seu discurso apontando as falhas de uma arte burguesa ocidental capitalista maculada pelo eu. “Sempre o eu, eu, eu!” Nada mais concernente com o pensamento do socialismo soviético, que no filme apresenta, pode-se dizer, o indivíduo se diluindo em nome do coletivo. Sua arte deve, assim, representar esse ente maior que é o coletivo acima de todos. Se o pai de Kurt fora um professor adepto ao nazismo por obrigação, caricaturando um “Veil Vinkler”, seu professor socialista na faculdade de artes emociona-se com o potencial do jovem Kurt em dar cor e forma aos anseios artísticos do regime.

É nessa fase que o jovem Kurt conhece o amor e também aqui um ponto favorável ao filme em mostrar toda a simplicidade e profundidade de uma trama em que dois jovens apaixonam-se. O amor aqui é tratado como uma história que deve parecer familiar a muitas pessoas. Uma escapada espetacular, uma mãe que já sabe de tudo, simpatiza com o namorado da filha mas nada conta. Um pai característico de uma época que quer apenas o “melhor” para sua filha. O seu melhor, não o melhor que ela busca. Todavia, em se tratar de uma história de amor, também a história de Kurt Barnert e Ellie Seeband – interpretada pela talentosa Paula Beer – passa por cima de todos os obstáculos que podem enfrentar, inclusive a repulsa de um pai autoritário que demonstra seu autoritarismo e repulsa sem deixar de ser, de certa forma, refinado. Algo nos leva a pensar: o pai foi nazista por ter sido doutrinado no regime ou já trazia dentro de si todo um ideal de existência que apenas aflorou durante o Reich? É de fato muito interessante pensar as camadas e nuances que se estabelecem na figura de Herr Professor, visto que de tão bom nazista tornou-se um bom socialista também, mesmo que possamos duvidar dessa camada da figura pública que ele encarna perante a sociedade. A crítica aqui nos revela algo que todos nós sabemos: há um modo de ser público e um modo de ser privado. Bem, pelo menos para o pai de Ellie. Kurt, por outro lado é uma pessoa simples, quase um livro aberto, sendo quem ele é em todos os lugares em que está. Obviamente essa abertura livresca não caracteriza nem superficialmente sua personagem, pois suas camadas são mais reveladas ao público que assiste a obra do que aos outros personagens da trama, nem mesmo à sua esposa. Ellie nunca fica de lado durante a história, vivendo cada decisão de Kurt, sofrendo o autoritarismo do pai e sendo mais que uma mera coadjuvante.

Outro momento histórico surge no filme como um parágrafo surge em uma história e marca o início da terceira parte na jornada de Kurt e de Ellie. Vemos o casal saindo da Alemanha Oriental pouco antes das portas se fecharem com a construção do Muro de Berlim. Assim ambos deixam para trás dois regimes totalitários que marcaram suas vidas, no corpo e na alma, literalmente. Tanto na alma de Kurt quanto no corpo de Ellie, ferida propositadamente por uma ideologia de superioridade de uma raça que não deveria se misturar com outra de menor significância.

No moderno mundo capitalista ocidental surgem agora novas possibilidades de existir e o passado pode ser apenas o que ele é: passado. Mesmo que suas marcas acompanhem o ser de Kurt e Ellie. É nesse novo mundo em que não há espaço para totalitarismos que Kurt vai tentar procurar sua arte. O que é muito importante para ele e instigante, pois a mensagem que lhe passam não deixa de ser totalitária: se você já tem trinta anos e não criou nada ainda, você já era. A realidade mais uma vez esmagando quem procura ir além daquilo que lhe é dito. Esse é o novo desafio para um artista cuja busca pelo estilo próprio pode ser agora mais tempestuoso do que imaginava ser antes. Pode-se inferir, inclusive, que a todo instante tentam dizer a Kurt o que a arte deve ser, o que a arte é, porém, o que ele nunca deixa de lembrar e o filme faz questão de nos recordar é que a arte é, antes de tudo, uma busca de liberdade. Uma busca que custou a sua tia mais que sua própria liberdade. Mas uma busca que deixou marcas tão profundas em Kurt que nem mesmo sua situação econômica foi capaz de derrubá-lo. Nem mesmo as artimanhas de seu sogro foram capazes de destruir em Kurt sua busca pelo seu talento. 
       
A obra do diretor Florian Henckel von Donnersmarck mais uma vez nos toca assim como já havia feito em sua outra película, “A vida dos outros”, de 2007. Ao estabelecer os totalitarismos que esmagaram a história alemã, o diretor também nos faz pensar sobre os totalitarismos diários que aqui e acola açoitam nossas decisões diárias.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...