terça-feira, 26 de julho de 2011

Professores cansados...

Não é um bom título após " professores derrotados", mas é o que me veio a mente. Depois de dois meses de greve lutando pelo reconhecimento, ainda ficaram muitas dúvidas do que realmente ganhamos. Salário? 76 reais não é avanço para quem brigou por mil!

Voltamos as salas de aulas e não adianta ninguém vir me pedir ânimo, estou ainda recolhendo meus pedaços.
Tentei retornar e ser eu, voltar à matéria de onde parei e logo de cara constato uma triste realidade: nossos alunos não sabem nem o básico! Básico em história é saber pelo menos o porque de se "comemorar" alguns feriados. Não fico pasmo por não saberem, fico mais triste ainda.

Nossos alunos do segundo ano do Ensino Médio não sabem a data da chegada de Colombo à América, não sabem o ano e nem sabem que foi ele quem "descobriu" o "Novo Mundo". Admirado, sigo fazendo-lhes outras perguntas "cretinas" sobre alguns personagens, datas e acontecimentos. NADA! Não sabem ou não lembram ou apenas reclamam que algum professor ou professora não lhes ensinou. Pontos cardeais? Coordenadas geográficas? NADA! Internet em casa? Acesso? Eles tem. Sabem usar? A maioria não sabe nem baixar músicas ou filmes. Triste constatação.

Estou perdido, é sério. Provas? São anti-didáticas. Decoreba? Anti-didático. Avaliação? O mais abrangente possível? Repressão? Democracia de conhecimentos? Transformação da realidade? Não sei mais nada.
Sento em frente ao computador, pego os livros, as revistas, aulas prontas em powerpoint, não sei o que fazer.

Ritmo de trabalho: 40 aulas semanais.

Escola Um: 26 aulas de história, 13 turmas de Ensino Médio, conteúdo defasado, falta de xerox, falta de biblioteca, excelentes alunos e muitos sem disposição, alguns especialistas em rir o tempo todo, mascar chicletes, mexer em celular. Assunto principal? Qualquer coisa relativa única e exclusivamente a uma balada qualquer. Minoria? Aqueles preocupados em ter mais palavras no vocabulário, preocupados em rir com mais consistência e mais consciência da realidade, aqueles cujo futuro se torna meta a atingir.

Escola Dois: 14 aulas - História, Filosofia, Sociologia. Escola pequena, de interior, os mesmo problemas da escola maior, porém em menor escala, bem menor. Dificuldade: lecionar três disciplinas e não misturar tudo na mente de cada um.

Final de semana: 20 horas semanais de faculdade (minha segunda). Resultado: domingo não é o dia de descanso, não é mesmo.

Ano que vem não quero mais as 40 aulas, vou pegar apenas minhas 32, no máximo, e oferecer uma qualidade maior aos que realmente merecem: meus alunos! Resultado no salário: menos aulas, mais aperto em casa. Ou isso ou stress redobrado. E os projetos que sempre temos em mente? Continuarão em mente...

Conversei muito com meus alunos sobre as suas dificuldades e sobre as minhas. Me dói estar aqui escrevendo isso, mas é minha forma de expor minha raiva, indignação e revolta contra esse modelo falido de educação. Não sei o que pode ser melhor, mas do jeito que está não dá mais! A família precisa ser mais responsável, o Estado precisa ser mais responsável e os professores precisam ser mais comprometidos.
Diante disso, temos algo que é maior: a mídia, a globalização em seu lado nefasto, as inúmeras facilidades comodistas tecnológicas que, embora nos ofereçam conforto, nos retiram a essência do saber fazer.

Não quero que meus alunos apenas decorem, quero que entendam processos. Todavia, nenhum conhecimento é desnecessário. E conhecer implica em estudar: Ler bem leva a escrever bem, quem bem escreve, bem entende, bem pensa, bem duvida, bem critica e não aceita as coisas facilmente.

Compreensão e interpretação: um mal que aflige todos nós. Eu e você.

Wagner Fonseca, 26 de julho de 2011

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2 comentários:

  1. Somos todos nós ontem mesmo conversavamos sobre isso na hora do intervalo, nós professores estamos nos sentindo sem estimulo e nos pegamos sendo os professores que nunca sonhamos em ser.

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