quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Crônica de uma balada qualquer

Alguns mais jovens até me chamariam de velho, talvez ultrapassado. Porém, eles se lembram que seus pais são mais velhos que eu e muitos acabam se confundindo. Se sou novo é porque ainda nem tenho trinta, mas penso como os de quarenta. Se sou velho, porque já tenho quase trinta, só que tenho atitudes e a alegria características da adolescência (com ideias que eles não entendem).

Bem, essa confusão eu sinto também, afinal, quando criança recebi os valores de meus pais, ouvi as músicas que minhas irmãs ouviam e carrego isso comigo. Eis um ponto que percebo em comum entre os adolescentes de hoje e a minha adolescência: os valores que negamos nessa fase, as músicas que deixamos de ouvir, por exemplo. E se permito um sorriso aqui, com o tempo e as experiências adquiridas, tudo acaba voltando. Por isso lembrei dos sábados e resolvi viajar um pouco sobre esses dias tão especiais. Contudo, de que sábados quero versar nesse momento?

Eu tive uma infância feliz, ingênua, aventureira e criativa, rodeado por amigos e primos, como toda infância deveria ser. Eu a trago comigo sempre. Minha adolescência foi normal, ou seja, repleta de altos e baixos, erros e acertos, alegria eufórica e tristeza profunda. “Balada” não era a palavra que usávamos para referendar nossas festas. Na realidade, os sábados nossos eram mais intimistas, pessoais, entre amigos. A “balada” ocorria normalmente aos domingos à noite, porque era mais barato, devo confessar.

Hoje, depois de um longo período de ostracismo, eu e minha esposa resolvemos reviver os momentos interrompidos por uma gravidez e vida familiar. Agora nossas “baladas” são aos sábados à noite, pois o domingo e a véspera de todas as responsabilidades. Cabe dizer que nossos amigos, nosso conhecidos tão frequentes outrora, hoje resumem-se a uns poucos rostos, uns totalmente solitários em seus semblantes, outros semblantes esmaecidos, opacos, mas donos de uma vivacidade típica de quem já sabe também que os tempos são outros. Vejo neles o que vejo em mim: pessoas que ainda não se entregaram, pessoas que sabem como a rotina pode nos maltratar. Todavia, nós parecemos seres estranhos às vezes: somos adultos agora e como não seríamos estranhos? Permito-me um sorriso novamente.

As “baladas” mudaram também e descobri que as melhores festas ocorrem justamente no interior, com “som mecânico”, como se dizia lá nas décadas de 1980 e 90. As músicas estão distante daquilo que gosto, muito distante, mas me alegra em ver a felicidade de minha esposa. Ela continua a mesma de quando nos conhecemos, o tempo parece não agir sobre seu corpo. Eu, por outro lado, caminho mais e mais rumo ao final da beleza juvenil, que já abandonou o corpanzil que adquiri graças a uma vida cheia de rotina. Mesmo assim, o espelho ainda revela o jovem que teima em reinar nesse mundo. Que se danem as músicas! Não preciso ouvi-las! Preciso apenas estar ali, na maioria das vezes sozinho entre a multidão, mas continuo vivo, até o fim! Embora a gurizada de hoje seja totalmente doida, sem noção, como dizem.

Sinto falta das músicas lentas, que nos faziam dançar agarradinhos, corpo a corpo, numa sintonia perfeita para qualquer beijo. Quantas e quantas vezes dançamos assim ouvindo as baladas do Roxette, por exemplo. Falta essa qualidade às músicas atuais. Embora eu saiba que também nós precisamos nos adaptar aos novos ritmos. Entretanto, para um rock’n’roller como eu, as coisas são mais complicadas.

Ah, mas para que complicar tudo assim, não é?

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3 comentários:

  1. Muito bem escrito!
    É a segunda vez que estou esbarrando em alguém falando no Roxette... Bateu uma saudade de ouvir....
    Realmente existe esta falta de qualidade musical, em especial nas baladas... Claro que vamos lá para nos divertir. Mas, bate um desânimo - pelo menos em mim - quando o que está tocando é tão pobre e tão distante do que gosto...

    ;P

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  2. Beleza!
    obrigado pelo comentário Karla!

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  3. Cada época tem muita coisa nova para nos acostumarmos... cada um sempre lembra da sua pensando ser a melhor...

    Muito bem escrito.....

    http://leticiaturtle.blogspot.com/

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